Kennings: metáforas ou não?

Em 2014, enquanto lia Curso de Literatura Inglesa de Borges, encontrei pela primeira vez kennings. Eu nunca havia ouvido falar sobre elas, e foi uma grande surpresa descobrir que além de comuns em Old Norse, Old English e Islandês, elas eram parte importante da literatura mundial, encontradas em Beowulf e The SeafarerComo algo tão bonito havia passado batido por toda a minha vida?

Antes de tudo eu me coloquei a pesquisar mais sobre elas. Kennings eram compostos que davam um sentido figurado às coisas, usados em lugar de palavras mais diretas. Por exemplo, a palavra rei podia ser trocada por “ring-giver” (doador de anéis), pois na época uma das formas que os reis tinham de demonstrar seu apreço por guerreiros era lhes dando um de seus anéis; o mar podia ser chamado de “whale-way” (caminho da baleia); e sangue podia ser chamado de “battle-sweat” (suor da batalha) – um dos meus favoritos.

Porém quanto mais eu conhecia novas kennings, mais eu me via confundindo-as com metáforas. Similares, metáforas são figuras de linguagem que, por meio de uma palavra ou frase, representam algo de forma não-literal. O termo sangue do meu sangue representa tanto a hereditariedade quanto reconhecimento de algo ou alguém como parte de um mesmo grupo; a ideia de torre pode ser usada tanto para falar da ignorância do homem quanto ao seu isolamento do mundo. Só o fato de não serem compostos não era o suficiente para servir como distinção entre elas, então resolvi procurar outros pontos que tornasse a distinção entre elas mais clara.

Alberto Manguel observa em seu livro O Leitor como Metáfora que a linguagem recorre à metáfora para “incrementar as possibilidades de entendimento mútuo e criar um espaço mais amplo de sentido” (MANGUEL, p. 13). As kennings servem da mesma forma, pois não só elas eram comuns a todos da época quanto abriam espaço para novas criações, como “swan-road” e “sail-road”, ambas relacionadas ao mar. A maioria dos leitores de hoje conseguem perceber o significado das kennings que aparecem em Beowulf, por exemplo, de tão universais que elas são. Metáforas, no fim das contas, funcionam da mesma maneira.

Passando para outros meios, cheguei a perguntar para dois professores na Universidade sobre qual seria a diferença. Um não soube me responder e comentou que provavelmente eram a mesma coisa, enquanto outro disse que a diferença estava somente na época em que foram usadas. Porém este segundo eu rebato com as chamadas kennings modernas, que incluem palavras como bookworm (traça de livro) para aqueles que gostam muito de ler e tree hugger (abraçador de árvores) para ecologistas e/ou pessoas que amam a natureza.

Por fim, ainda hoje me pego pensando na diferença entre elas. Sinto que há certa diferença, até mesmo no modo de usar, mas não consigo apontar exatamente o que. É como se a diferença fosse tão sutil que mesmo após explicando-a, pouca diferença faria.

Então deixo aqui uma pergunta em aberto: qual a diferença entre metáforas e kennings?

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Referência:

  • MANGUEL, Alberto. O leitor como metáfora. Trad. José Geraldo Couto. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017.
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