Resenha: O Garoto do Riquixá

Começo essa resenha com uma dica: este não é um livro para pessoas desiludidas.

O Garoto do Riquixá, de Lao She, é uma história muito interessante sobre a vida na cidade de Beijing dos anos 1920, vista a partir do olhar de um jovem puxador de riquixá que pretende encontrar algo estável e seguro para assegurar seu futuro. Xiangzi, percebendo que sua estatura e seu cuidado podem o levar além de seus colegas, usa suas capacidades ao máximo para conseguir alcançar sua tão amada liberdade.

O que parece ser um relato da vida sofrida de um jovem cheio de ilusões, termina por ser uma sutil crítica social de uma Beijing idealizada por muitos. Lao She reconstrói todo o desenvolvimento de uma época tomada por grandes desigualdades, revoluções cheias de falsas esperanças e pouca saída para aqueles que tinham pouco. Em meio a personagens inventados ele abre espaço para a realidade tomar conta do leitor.

Um dos pontos mais fortes desse livro é a escrita. Xiangzi passa por todo o tipo de situação em períodos bem curtos de tempo, mas Lao She escreve de modo que o leitor não se sente sobrecarregado com o tanto de informação. Ao contrário da maioria dos autores, ele faz uso de frases nem muito curtas nem muito longas, mentando o passo contínuo em momentos de grande movimento sem cansar o leitor. Muitas vezes ele também descreve o ambiente, criando uma pequena brecha para o leitor poder respirar e se preparar para o próximo momento de grandes reviravoltas.

Outro ponto que chama a atenção é a descrição dos personagens. Assim que alguém surge na vida de Xiangzi, uma breve descrição da pessoa é dada. No entanto, ela é feita parcialmente, sendo construída aos poucos com o desenrolar da história. O leitor tem somente a base do provável comportamento dessa pessoa, e isso torna as reações de cada um – até mesmo do próprio Xiangzi – difíceis de serem esperadas. Esse aspecto as torna reais, levando o leitor a simpatizar até mesmo com o mais desagradável deles.

A ironia da vida de Xiangzi, que na maior parte do tempo se esgueira pelas entrelinhas, muitas vezes é esparramada pela narrativa, como no seguinte trecho:

“O pior era quando o adultos adoeciam; depois da chuva, os poetas se inspiravam nas gotas de chuva sobre as flores de lótus e os arco-íris duplos, mas, nas famílias pobres, quando os adultos adoeciam, todos passavam fome.” (SHE, 2017)

Essa ironia se aprofunda principalmente quando ele se relaciona com alguém de classe mais alta. A relação constante do personagem com pessoas de vida mais abastada traz ao leitor uma nova forma de encarar suas reações, que tiradas do contexto soam muito exageradas e deterministas. Há um certo ar de aceitação que paira sobre a cabeça de Xiangzi, de forma que, não fosse por trechos como esse, muitos poderiam enxerga-lo como um simples choramingão.

Em meio a tantas coisas boas, somente um pequeno quesito quebrou um pouco a narrativa: o personagem Cao. Professor, ele é sempre muito bondoso e delicado com Xiangzi, sempre procurando ver as coisas de forma equilibrada e disposto a ajudar todos. É o único ser em todo o livro que não possui qualquer tipo de mania que possa ser repreendida. Ele acaba destoando da história, e é difícil criar qualquer vínculo com ele.

No mais, o livro é incrível. Vale muito a pena ler, principalmente a edição da Estação Liberdade, que vem com um apêndice em que o autor explica de onde veio a ideia da obra. Mais um autor que vale a pena conhecer melhor!

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