Em defesa das biografias

Li uma parte de um artigo sobre biografias não faz muito tempo. O que me chamou a atenção foi que o título era algo como “Biografias podem ser consideradas literatura?” e achei engraçada a pergunta. Eu entendo de onde ela surge, ainda mais agora que a maioria dos meus atuais colegas são bem restritos quanto ao que pode ser considerado literatura. Porém mesmo assim eu tenho minhas ressalvas.

Não acho fácil a discussão do que pode ser considerado literário ou não. Na maioria das questões eu acredito ser bem aberta, mas tenho lá minhas restrições, como letra de música por exemplo. Muitas pessoas na minha área possuem definições restritas, necessárias quando se pretende fazer um estudo sobre teoria literária. A falta desse conceito muitas vezes causa problemas na hora de analisar obras, pois entramos no “o que pode ser analisado? O que deixar de fora?” e outras perguntas que enrolam o teórico.

No entanto, eu não consigo ver como biografias não entrariam no ideal de literatura, pois tem muito mais do que somente a história de uma pessoa escrita ali. Dito isso, vale uma análise mais profunda do que seria uma biografia, ainda que eu não seja muito fã delas (a não ser se for sobre Van Gogh, Agatha Christie e Alexander Humboldt, claro).

Quando procura-se a definição de “biography” no site da Oxford Dictionaries, tem-se a seguinte descrição:

“An account of someone’s life written by someone else.”

Basicamente é como se alguém fizessem um relato do que você fez. Eu tenho um grande desgosto por esse conceito, pois ele deixa no ar aquela ideia de que é uma simples recontagem crua. Justamente por causa desse conceito eu passei anos sem chegar perto desse gênero, com medo de morrer de tédio no processo de leitura.

Biografias vão muito além disso.

Minha primeira aventura positiva nesse meio foi com a leitura de A Invenção da Natureza, de Andrea Wulf. A biografia conta a vida de Alexander von Humboldt, detalhando todas as suas viagens (ele escrevia muito) e suas relações com grandes figuras da história, inclusive Goethe. Entre situações constrangedoras, cartas, desenhos e experiências fenomenais – ainda mais para a época – me vi engolindo o livro em poucos dias.

O que mais me chamou a atenção é em como Wulf tomou cuidado em apresentar mais do que um simples relato, e sim atentar para o fato de que, apesar das descobertas de Humboldt serem importantes, ele também era importante como pessoa. Sei que soa um tanto ridículo, mas é um dos pontos em que a maioria das bibliografias erram. Já tentei ler algumas que tentaram idealizar ou até transformar certas pessoas em grandes deuses, o que acaba com a leitura. Wulf, por outro lado, mostra como ele também tinha seus dias horríveis, momentos de raiva e decepções.

Falar da vida alheia é bem fácil. Difícil é desmistificar a imagem de alguém. Esse é o ponto em que biografias se tornam grandes obras literárias: elas são sinceras. Elas lembram como grandes feitos pouco tem haver com felicidade ou vida plena. Viver é feito de tudo, da mais profunda tristeza até a mais profunda alegria, e o que fazemos e alcançamos nada mais é do que mérito próprio.

Por essa sinceridade do caráter humano (mesmo quando inventado), biografias merecem ser consideradas literatura. Assim como lemos sobre a vida de personagens imaginados e sentimos grande proximidade, o mesmo ocorre quando lemos biografias. Não é porque a pessoa é real que ela deixa de ser passível de sentimentos e erros. A literatura está aí para nos trazer o melhor e o pior da humanidade, abrindo caminhos que muitas vezes não conseguimos ver.

Uma das frases mais marcantes do livro To Kill a Mockingbird nos lembra que:

“You never really understand a person until you consider things from his point of view… until you climb into his skin and walk around in it.”

Biografias nos trazem essa oportunidade, que apesar de ser incompleta, já nos abre um leque gigantesco de oportunidades. Temos muito o que aprender com os outros.

Então voltando a pergunta do artigo… Biografias podem ser consideradas literatura?

[SIM].

 

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