Crianças na literatura

Eu costumo descer para a sala em que dou aula alguns minutos mais cedo para poder ler sossegada. Quando os primeiros alunos chegam, guardo o livro sobre a minha mesa. É tão comum que eles nem estranham mais, mesmo os menores.

Ontem algo inusitado aconteceu. Estávamos conversando sobre histórias para crianças quando uma das minhas alunas mais conversadeiras perguntou:

“Teacher, tem crianças nos seus livros de adulto?”

Eu estava tão concentrada na aula que a respondi que sim sem mais nem menos. Na minha cabeça isso era algo tão óbvio que esqueci de como muitas vezes eles percebem o mundo de forma bem distinta da minha. A aula continuou como se nada tivesse acontecido, e o acontecimento se perdeu em minha cabeça.

Mais tarde me peguei pensando na pergunta dela. A verdade é que tem mais crianças nos livros que leio do que ela imagina. De Huckleberry Finn até Scout (de longe minha favorita), a capacidade de pensar de formas distintas de um adulto e também a abertura ao crescimento trazem uma riqueza para narrativas que seria quase impossível de se ver com adultos. Claro que há uma certa quebra entre a garotada da ficção e a real. Ainda que todos tenham passado pela infância, lembramos muito pouco do que é ser jovem, e grande parte é uma simples ilusão do que é ter tal idade.

Porém tem algumas que nos conquistam por motivos especiais. Algumas são novas e, apesar de algumas vezes darem trabalho, estão sempre tentando entender o mundo que as cerca. Scout, de O Sol É para Todos, é um ótimo exemplo: apesar de briguenta na escola e muitas vezes bem cabeça dura, sua curiosidade e disposição a leva a enfrentar o extremo racismo de sua época de olhos abertos e ouvidos atentos aos ensinamentos de seu pai. É preciso uma mente disposta a prender para poder combater problemas sociais tão profundos e difundidos na sociedade.

Outras são mais aventureiras, e tomam a primeira chance que se abre para elas conhecerem o mundo. Jim Hawkins, de A Ilha do Tesourodescobre que coragem e bons amigos podem ser encontrados em qualquer lugar, mesmo que nada promissores. Outra jovem que descobre isso é Coraline, andando no limiar entre dois mundos e procurando encontrar sua verdadeira família.

Não podemos nos esquecer também da jovem Briony (Reparação), que representa um lado um pouco mais complicado da infância: os erros que cometemos por ingenuidade e excesso de sentimentos. Com somente treze anos, muitas coisas que ocorrem acabam sendo vistas de forma errada por ela, o que a leva a condenar um homem inocente a uma vida cheia de sofrimentos – ato esse que a leva anos depois a escrever um outro final para ele, como uma forma de redenção.

No fim, todos os meus alunos poderiam ser personagens de livros “de adulto”. Ao contrário do que minha resposta seca deve ter soado para minha aluna, a proximidade dessa garotada é gigantesca, ainda que o público alvo seja mais velho. Crianças nos lembram daquilo que fomos, que nos tornamos e, acima de tudo, nos lembra daquilo que ainda podemos ser, se deixarmos que pontos positivos dessa idade tão nostálgica continuem a nos guiar.

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