Leitura conjunta de ‘Jude, the Obscure’

No final do ano passado convenci um amigo, Rodrigo, a ler comigo ‘Jude, the Obscure’, de Thomas Hardy. Conheci o livro ao fazer um trabalho sobre o autor, mas confesso que nunca tive coragem de ler por perceber que era uma leitura bem melancólica. Acabei terminando o livro ridiculamente rápido, esperando por meu amigo para poder debater sobre alguns pontos. Recentemente enfim pudemos sentar e discutir sobre esse livro incrível.

Para facilitar a leitura daqueles que se interessam somente por certos pontos sobre a narrativa, dividi em esse post em seções.

  • Visão Geral

A história de Jude é cheia de contratempos e voltas inesperadas. Um jovem tomado pelo sonho de ir para a universidade vê seu caminho bloqueado por um casamento desagradável e sem futuro com Arabella. Após ser abandonado por ela, Jude encontra Sue Bridehead, uma jovem de pensamento livre que muda completamente sua visão perante o mundo.

Parece uma simples história de amor e desenvolvimento de caráter, mas é muito mais do que isso. O livro traz críticas voltadas para as relações matrimoniais, religiosidade e questões sociais da época (que honestamente ainda são bem presentes). Thomas Hardy faz com que o leitor caminhe lentamente com Jude, experimentando uma vida cheia de sonhos que jamais podem se realizar em função do âmbito social em que ele está inserido. Ao terminar a leitura me senti como se houvesse passado por tudo que ele passou.

  • Narrativa e linguagem

Apesar de ter uma narrativa com começo, meio e fim, Rodrigo observou que de vez em quando parecia que Hardy estava para terminar a história, mas resolvia continuar “só mais um pouquinho”. Eu não havia percebido isso antes, mas concordo com ele. Muitas vezes a narrativa sofria uma certa queda no ritmo, as frases se tornavam mais conclusivas e conflitos eram resolvidos (ou mal resolvidos), dando aquela ideia de que não havia mais nada a ser dito. Porém ao virar a página: mais uma seção quilométrica de desgraças para toda a família! Yey!

A escrita de Hardy é bem formal, o que causa um grande contraste com sua constante preocupação em descrever os cenários. Eu já havia notado isso antes, mas a discrepância nunca foi tão grande. Com suas frases longas e uso de comparações um tanto exageradas, muitas vezes tínhamos a sensação de ler alguém descrevendo uma pintura ao invés de um campo ou uma cidade. Por um lado, temos um vocabulário rico; por outro, muitas vezes era necessário reler um trecho para entender onde ele queria chegar. Por exemplo:

“And the city acquired a tangibility, a permanence, a hold on his life, mainly from the one nucleous of fact that the man for whose knowledge and purposes he had so much reverence was actually living there; not only so, but living among the more thoughtful and mentally shinning ones therein.” (HARDY, 2000, p. 16)

Como em alguns trechos algumas frases se esticavam demais, a leitura ficava um pouco devagar, pois o ritmo da história acabava se quebrando. Não fosse a constante curiosidade de ver se Jude teria um final feliz ou não, seria muito difícil terminar a leitura.

  • Temas: casamento

Acredito que esse foi o ponto em que Rodrigo e eu mais discutimos. Hardy mostra com maestria todos os pontos positivos e negativos que essa instituição trazia às pessoas da época.

Três casamentos ocorrem no livro, mostrando as distintas facetas que esses relacionamentos trazem. O primeiro, entre Jude e Arabella, mostra os relacionamentos por interesse e ardor da paixão. A forma com que o casamento dos dois está fadado a falhar desde o primeiro momento é bem interessante. Hardy não critica diretamente as ações de Arabella e a ingenuidade de Jude, mas mostra com clareza a intenção de cada um dos dois.

Pode-se perceber a tentativa de Hardy de desmistificar o amor e abraçar uma certa abertura sexual por meio de Arabella, mas o tiro acaba saindo pela culatra. Ao invés de ser um exemplo de liberdade mesmo em uma relação fechada, ela acaba saindo como uma mulher cruel que não consegue pensar em ninguém além de si mesma. A personagem acaba quebrando com um dos pontos mais importantes do matrimônio: respeitar e construir algo COM o outro. Não há um ato da parte dela que não seja fundado por um sentimento egoísta.

Já o segundo, entre Sue e Phillotson, é um casamento movido muito pela culpa e sentimento de dever. Sue aceita se casar com ele simplesmente porque ela acredita que sem ele, não teria conseguido nada do que tem. A falta de amor ou mesmo qualquer tipo de interesse causa um grande vácuo entre os dois, levando até mesmo a recuos físicos da parte dela. Infelizmente, Sue descobre que ama Jude, mas sente que não tem o direito de abandonar Phillotson.

Aqui toda a instituição matrimonial começa a se despedaçar. Uma das coisas que mais nos chamou a atenção foi a influência que esses relacionamentos causavam no meio em que viviam. Ainda hoje percebemos como relacionamentos podem causar impactos sobre a vida das pessoas, mas já não é tão forte como na época em que o romance foi publicado (1895).

Tanto Jude quanto Sue acabam se separando e ficando juntos, mas este ato causa mais dificuldades aos dois. O fato de Sue ter se separado e ser conhecida em vários lugares faz com que o casal tenha de procurar um lugar diferente para viverem, pois a sociedade olha para os dois com grande desgosto. E os problemas não caem só sobre eles: Phillotson perde seu cargo por permitir que Sue se separe dele e corra para os braços do outro. A reação da sociedade é tão forte que mais de uma vez nos vimos revoltados com a incapacidade de entenderem como era melhor para os personagens tomar os caminhos que escolheram.

  • Temas: religiosidade

A força da religião na narrativa invade tanto a vida dos personagens quanto as descrições, a começar pelo nome de Jude, que talvez seja o mais óbvio.

A cidade pela qual Jude se apaixona quando pequeno e onde deseja estudar na Universidade, Christminster, é descrita de forma santificada. Claro que isso ocorre em parte pelo desejo infantil de se mudar para lá no futuro, mas a aparência também não ajuda. As paredes super brancas, os tetos brilhantes que conferem uma certa aura, as luze que brilham ao pôr do sol…  Na cabeça de Jude, ela é exatamente como Jerusalém. Não é a toa que ela serve como ponto de partida e acaba como o descanso final da história.

Muitos dos personagens passam por momentos de completa transformação religiosa. Jude, que começa como um jovem profundamente religioso, vai vendo em seu próprio sofrimento a dificuldade de manter sua fé firme. Em vários momentos ele se revolta completamente contra um deus que em sua visão, nunca parece estar junto ou sequer torcendo por ele. Sue, por outro lado, começa como uma mulher de mente aberta, tomada por completo ceticismo – a ponto de comprar duas estátuas que tem de manter escondidas em seu quarto – e termina tomada por uma profunda fé.

Algo que nos chamou a atenção foi como todos os acontecimentos após o divórcio de Sue parecem ser tomados de forma cósmica. Se qualquer coisinha desse errado, tanto ela quanto Jude pareciam acreditar que era culpa de uma ordem divina, e que nada de ruim teria acontecido se não fosse o divórcio de cada um. A dita revolta contra a sagrada instituição do casamento se torna o motivo para que tantas coisas ruins aconteçam aos dois.

Isso mostra o tanto que a pressão religiosa-social era forte na Inglaterra, especialmente em cidades menores, como é o caso da área onde a história se passa. Perdi a conta de quantas vezes a descrição do desespero dos personagens fez com que eu me encolhesse junto com eles.

  • Temas: educação

Um dos primeiros sonhos de Jude é ir estudar na Universidade. Desde novo ele tira tanto gosto dos estudos que aprende sozinho grego e latim, e cresce alimentando o desejo de um dia estudar na universidade. Apesar de seu esforço contínuo, quando finalmente ele procura alguém para falar de seu sonho, riem dele. O que Jude acaba aprendendo é que seu problema não é a falta de conhecimento ou vontade, mas seu lugar na escala social.

A crítica de Hardy ao meio acadêmico fica bem clara em uma cena muito interessante. Jude, após beber bastante, começa a falar em voz alta sobre filosofia e outros temas. Três alunos da Universidade lhe fazem companhia, e com bastante certeza vão concordando e aplaudindo tudo o que Jude fala. Mais tarde, ao ir caminhando para casa, ele percebe que os alunos não faziam ideia do que ele falava, e que todas as suas citações podiam estar erradas – nenhum deles saberia. Nesse momento Jude percebe como estar na Universidade nada mais quer dizer além de que a pessoa faz parte da classe alta.

Isso nos remeteu bastante ao atual estado de muitos brasileiros que tem vontade de estudar mas não possuem os meios econômicos e as oportunidades que outros têm para poder ingressar na universidade. Ainda que muitos martelam a ideia de que educação é um bem para todos, a verdade é que não é nem de perto possível para todo mundo. Muitos jovens, assim como Jude, precisam trabalhar para conseguir se manter, mas ganham tão pouco que mal conseguem se sustentar.

  • Conclusão

Este livro é pesado. Os temas constantemente oprimem os personagens e o leitor, e algumas cenas são de cortar o coração. Como Rodrigo observou:

“Este livro é MUITO em tudo.”

Não é um livro em que a felicidade brilhe, ou no qual um raio de sol bata diretamente sobre. Por outro lado, a força dos acontecimentos trazem ao leitor uma nova forma de analisar a vida: pelo lado negativo. As reações dos personagens, por mais ingênuas ou instintivas que sejam, nos levam a refletir sobre como nós mesmo reagimos perante qualquer experiência ruim.

Muitas vezes tanto eu quanto o Rodrigo ficávamos irritados com as reações deles, mas muitas vezes nós conseguíamos perceber o processo mental que levava a tais consequências. Isso nos fez ver que também já reagimos de forma exagerada a situações que nada mais eram que simples coincidências, completamente fora do nosso controle. A falta de momentos felizes também nos traz novas perspectivas do que é a vida.

Espero ter a chance de fazer algo assim novamente, apesar de que terei primeiro de convencer o Rodrigo (ou outra pessoa) a embarcar em outra leitura doida comigo. Valeu a pena, e mal posso esperar para repetir a experiência!

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