A hora do poeta

Tensão.
O poeta escreve desesperadamente, pela terceira noite seguida. Mil ideias passam por sua cabeça, e ele não pretende perder nenhuma. Sua mão dói. Sua cabeça lateja por causa das noites sem dormir, mas isso não o fará parar. Na parede, o relógio segue seu ritmo, arrastando as horas pelas paredes do quarto. Um corvo olha atentamente para o poeta trabalhando, mas não se mexe; não fosse pela respiração, dir-se-ia ser uma estátua.

Escuridão.
O mundo inteiro parece dormir. As velas do aposento iluminam fracamente, muitas delas já extintas. Nem mesmo a lua brilha. Naquela noite, o mundo parecia ter decidido deixar o poeta terminar seu trabalho em paz, sem nada a incomodá-lo. Até mesmo os lampiões da rua pareciam ter sido esquecidos. O corvo é só uma forma sombria na janela. Um mundo obscuro reinava.

Silêncio.
Não há movimentos nem sons na rua. Até mesmo os animais noturnos pareciam ter deixado o poeta sozinho. Os únicos sons que se pode ouvir são o da respiração ofegante do poeta e barulho do relógio. Um leve tic-tac embala o poeta e seu trabalho, quase como uma canção de ninar. Diante de tão solene momento, um ruído a mais talvez quebrasse o cenário, ameaçando uma obra que por fim nasceria.

Dor.
Uma gota de sangue. Os dedos do poeta começam a sangrar; mesmo assim, ele não para. A dor parece consumir seu corpo lentamente enquanto as gotas de sangue escorrem quentes, mas ele não deixará que isso interrompa seu momento de glória. Ele via naqueles versos uma verdadeira obra, algo que mudaria o mundo, e talvez ele nunca mais tivesse a chance de escrever algo tão grandioso. Ele o completaria esta noite. Ele suportaria a dor, mesmo que ela o matasse. O olhar do corvo se dirige ao sangue, quase como se desejasse suga-lo, porém o poeta está muito ocupado para lhe dar a mínima atenção. Os ponteiros do relógio começam a deixar um rastro escuro, como se sangrassem também.

Um atraso.
Pela primeira vez, o relógio começa a diminuir seu ritmo, como se alguma mão invisível começasse a segurar os ponteiros. O poeta acelera sua escrita, percebendo que sua obra está chegando ao fim. A adrenalina sobe, e ele quase não consegue se conter. O sangue passa a descer na forma de um pequeno e fino rio, e ao atingir o papel, se mistura com a tinta. Agora mais do que nunca, esse livro faz parte de mim, pensa o poeta. Um pequeno sorriso se desenha em seu rosto.


Um suspiro.
O poeta escreve a última palavra. Sorri triunfante, admirando seu trabalho. Olha para suas mãos; quanto sangue. Mas está feliz. Joga-se cansado sobre a cadeira e inspira. O ar parece pesar, como se seus pulmões não conseguissem suportá-lo. Sua visão começa a escurecer, e ele não sabe dizer se seus olhos estão fechando. Um leve suspiro se forma em seus lábios à medida em que a dor toma conta do seu ser. O corvo crocita, e pela primeira vez o poeta o nota. Lembra-se de um poema de Edgar Allan Poe e sente-se impelido a falar com o corvo, mas sua boca não lhe obedece devido ao cansaço. Os ponteiros do relógio avançam mais um pouco, antes de pararem totalmente. O poeta dá seu último relance na obra acabada.

A MORTE.
Suas mãos caem na lateral de seu corpo, e sua respiração cessa totalmente. Quase não se pode ver as horas, visto que o rastro deixado pelos ponteiros escorreu sobre alguns números. O corvo entra pela janela e observa o poeta, como se esperasse que ele acordasse. Após um tempo, o corvo pega com seu bico a última folha escrita pelo poeta, onde há somente uma frase. Ao sair pela janela, derruba uma vela sobre os papéis deixados na mesa, e se vai.

O amanhecer.
Milhares de pessoas olham assombradas para a casa incendiada. Não sobrara nada, apesar dos inúmeros esforços dos vizinhos em apagar o fogo. As pessoas conversam sobre o que poderia ter acontecido. Atrás de uma árvore e distante de todos, um velho sorri com um pedaço de papel na mão e um corvo eu seu ombro.

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