Sobre Javert* e a Sociedade

*Que fique claro que minha análise sobre os personagens foi baseada no filme. Eu não li o livro inteiro, portanto pode ser que eu não saiba de algum acontecimento específico que comprometa as teorias por mim levantadas.

Há um tempo atrás tive o prazer de assistir ao musical “Os Miseráveis”, acompanhada de minha mãe. Eu nunca consegui ler o livro inteiro, mas quem não conhecia a história de Jean Valjean e sua eterna fuga do inspetor Javert, da dor de Fantine e do amor entre Cosette e Marius? No geral saí um tanto satisfeita com o filme, que além de muito comovente, levantou ótimas questões para discussão.

Como a boba que sou escolhi um personagem para chamar de “favorito”, e minha escolha causou algumas reviravoltas. Conhecidos chegaram até a se sentir um tanto insultados quando eu explicava o porquê de ter gostado tanto de um determinado personagem. Porém o que não entendiam é que eu não o fazia com más intenções; na verdade eu só apresentava a minha visão de mundo por meio de um simples personagem fictício (o que não deveria causar tanto problema).

Para a surpresa de uns e desgosto de outros eu adorei o Javert. Sim, Javert, o inspetor que persegue sem sossego Jean Valjean, que o faz fugir e viver uma vida reclusa. A visão geral que se tem dele é de que ele é um homem cruel, que persegue Jean Valjean quando este só procura ser um homem melhor. Não me entendam mal; não acho que Jean Valjean merecesse ser perseguido, pois também criei uma certa compaixão por ele. Porém também não acho que Javert mereça ser crucificado por tudo o que fez.

Segue-se uma breve descrição do personagem (muito boa, diga-se por sinal):

“[…] Metódico e racionalista ao extremo, Javert é um homem cego pela lei e pela ordem e dedica a sua vida a combater o crime e a perseguir aqueles que o sentido lato da legislação define como criminosos. Por ver o mundo a preto e branco e não dar quaisquer mostras de compaixão genuína ao longo da história, define-se assim como o principal antagonista de Jean Valjean, o ex-condenado às galés que modifica a vida de muitos dos que encontra com os seus atos de humanidade e sacrifício.” – Fonte: Wikipédia

Fiz algumas pesquisas na internet e encontrei várias pessoas dizendo que “a Lei é a religião de Javert”. Eu concordo plenamente com essa afirmação. Durante todo o filme ele demonstra um respeito muito grande às regras ditas pela sociedade da época, e as segue com um fervor brutal. Ele é tão rígido em sua busca pela ordem que se torna cego, e como foi dito na descrição, ele vê “o mundo a preto e branco”. Sua perseguição a Jean Valjean não ocorre porque ele o odeia e sim porque Valjean não cumpriu com as ordens que lhe foram dadas. Toda a raiva que surge depois é consequência da incapacidade de deter Valjean e fazê-lo seguir as leis que Javert tanto respeita.

A música “Stars” representa bem essa análise. Nela Javert mostra seu fervor religioso e sua busca pela moral. Ele chega a pedir que Deus o ajude a prender Valjean, demonstrando extrema ignorância em relação ao fato dele ter mudado e procurado se tornar uma pessoa melhor:

“He knows his way in the dark
Mine is the way of the Lord
And those who follow the path of the righteous
Shall have their reward”

“Ele conhece seu caminho na escuridão
O meu é o caminho do Senhor
E aqueles que seguem o caminho dos justos
Terão sua recompensa.”

Claro que não afirmo que ele é um exemplo de pessoa. No entanto, seu defeito é sua cegueira, sua visão fechada e sem profundidade. Ele não discute nem pensa sobre aquilo em acredita, criando uma ideia completamente superficial e bruta de certo e errado. A sua verdade é a fé em seu estado mais puro, sem dúvidas ou contestações.

Ao final do filme, Jean Valjean tem a chance de matar Javert e ser livre para sempre, porém o deixa ir. Esse ato deixa Javert desnorteado. O homem que perseguira a vida inteira ao invés de se vingar, deixou que vivesse. Ele não entende tal ato honrado, pois para ele Valjean jamais seria capaz de tal coisa. A ideia de mundo de Javert era de que uma vez criminoso, para sempre criminoso. Pela primeira vez em sua vida ele se depara com a possibilidade de ter sido injusto, de ter perseguido um homem que, ao contrário do que acreditava, era bom. Não sabendo como lidar com isso, Javert se suicida.

A música cantada na cena do suicídio se chama “Javert’s Soliloquy”, onde Javert coloca todas as suas crenças em questão. Ele não sabe se consegue perdoar Valjean por todos os crimes que cometeu, e muito menos se tudo aquilo em que acreditava ainda é real.

“And must I now
Begin to doubt
Who never doubted
all these years
My heart is stone
and still it trembles
The world I have know
Is lost in shadow”

“E devo agora duvidar
Logo eu que nunca duvidei.
Meu coração é de pedra
e ainda treme
O mundo que conheci
Se perdeu na escuridão.”

Para completar, ele ainda canta um trecho semelhante à Valjean. Nos dois casos, o trecho é cantado em um momento em que tudo aquilo que eles conheciam como verdade é transformado pelo ato de alguém. No caso de Valjean, o trecho é cantado quando o padre o perdoa por ter roubado ao invés de delatá-lo, demonstrando uma bondade que Valjean jamais esperou receber de alguém. No desfecho da música, Javert se suicida.

Agora vamos para o porquê do meu gosto por ele. Na sociedade em que vivemos cada vez mais nos deparamos com pessoas que lutam por mudanças nas leis, melhores condições e outros. Nas discussões vemos pessoas que se colocam a favor ou contra algo e que seguem com suas crenças até o fim.

Quantas dessas pessoas realmente ponderaram sobre o que acreditam? Quantas vezes não seguimos até o final com uma ideia porque acreditávamos que estávamos fazendo o certo e depois descobrimos que estávamos errados? A verdade é que talvez aquilo que consideramos certo pode causar um mal maior do que se tivéssemos seguido por um caminho considerado errado. Um exemplo? Pais. Todos (ou quase todos) os pais procuram criar seus filhos da melhor maneira possível, agindo da forma que acreditam que vai ajudar. Porém, como todo humano, eles erram. Alguns percebem que erraram, outros fingem que a culpa não é deles… Mas acontece. E tudo com a melhor das intenções.

Javert faz o mesmo. Sua perseguição é em prol do que acredita, pois ele considera o certo. Sim, ele foi injusto e em nenhum momento questionou as coisas em que acreditava, mas quantas vezes as pessoas também agem assim? Somos pequenos Javerts, em menor ou maior escala. Muitas vezes acreditamos em causas e ideias que, ao serem implantadas, percebemos que não eram boas. Infelizmente acontece. Claro que o questionamento deve estar presente em nossas escolhas, mas nem sempre vamos conseguir enxergar todas as possibilidades.

Algumas pessoas – como Javert – não conseguem viver com a possibilidade de estarem erradas e são destruídas por isso; outros já aceitam melhor a ideia e admitem o erro, procurando um caminho diferente a seguir. No fim das contas, Javert é um personagem que demonstra que nossas crenças podem estar erradas, e que nos lembra que não devemos agir somente do modo que nos é ensinado, mas sim com bom senso e racionalidade. Afinal, como algumas pessoas dizem: “Errar é humano, assumir o erro também.”

A partir daí, pergunto a você: Javert é realmente um personagem mal ou somente mal interpretado?

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