O mundo da introversão

Durante grande parte da minha vida fui uma pessoa extrovertida. Eu adorava falar com todo mundo, gostava de sair e conhecer pessoas, estava sempre no meio de tudo. Com o passar do tempo fui apreciando a solidão e me entregando completamente para mim mesma.

Muita gente costuma achar estranho essa minha mudança, principalmente quem me conhece dos tempos de escola. Em grande parte essa mudança ocorreu naturalmente, com um empurrãozinho de situações externas. Algumas pessoas chegam a perguntar: não é algo ruim?

Eu costumava a achar que sim. Essa necessidade de estar só, de preferir eventos mais fechados a festas e locais lotados parecia criar grandes barreiras sociais. Amigos acharam que eu estava deixando de me importar com eles e familiares viram como uma desesperada vontade de me manter longe de todo mundo. No fundo eu procurava um espaço em que me sentisse confortável e pronta para dividir ideias, mas nem todos viram assim.

Levei muito tempo para assumir sem vergonha essa minha preferência e dizer em alto e bom som que gosto de ser assim. Claro que deixo esse meu jeito de lado quando tenho de trabalhar, mas sempre que posso me mantenho afastada do caos que o mundo traz pra mim. E nesse meio também encontro a mim mesma, o que me ajuda a entender certas reações e decisões.

Contudo, eu precisei de ajuda para ver o lado bom de ser introvertida. Aliás, não somente consegui ver o lado bom como também pude perceber que ser introvertida não significava ser antissocial, como a maioria das pessoas gostava de me falar. Ser extrovertido não significa estar sempre à disposição, assim como o oposto não significa voltar as costas para todos.

A ajuda que precisei veio de um livro chamado Quiet – The Power of Introverts in a World that Can’t Stop Talking, por Susan Cain. Nele a autora faz um estudo sobre como a sociedade subestima o poder dos introvertidos e o desenvolvimento do mundo até que se chegasse a uma visão sobre que tipo de personalidade é boa e qual é ruim. Interessante e por vezes engraçado, é o tipo de livro que serve tanto como um estudo quanto uma boa leitura de domingo.

Um dos maiores inimigos de qualquer pessoa que se assuma introvertido são os livros de autoajuda. Famosos aqui no Brasil, eles são os que mantém as maiores taxas de venda, e quanto mais as pessoas leem, mais elas precisam deles. Esses livros normalmente possuem títulos extremamente agressivos, como Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas (Dale Carnegie) e O Poder do Agora (Eckhart Tolle). Ao analisar esses guias e compara-los aos guias mais antigos, Cain observa o problema linguístico e moral que eles trazem:

“[…] os novos guias celebravam qualidades que eram – não importa o quão fácil Dale Carnegie fez parecer – mais difíceis de adquirir. Ou você incorporava essas qualidades ou não.” – CAIN (2013)

Algumas dessas qualidades são até hoje marteladas na mente de todos: magnético, fascinante, energético, dominante… Essa constante linguística mostra como a nossa sociedade é baseada em qualidades sociais que não necessariamente incluem boa conduta ou bom trabalho.

Ao mesmo tempo em que essa cobrança mostra uma falha no no pensar, ela mostra o quanto é comum. Por exemplo, a maioria dos vilões possuem essas características de forma que o expectador se sinta atraído por ele e até mesmo o perdoe por seus crimes. Quanto ao herói, se ele não possui nenhuma dessas características a maioria das pessoas se vira contra ele e pode até desejar que ele não mereça um final feliz.

Essa constante necessidade de personalidades extrovertidas também se reflete muito em ambientes de trabalho. Aqueles que preferem o silêncio são normalmente vistos como antipáticos; se você prefere ouvir do que falar pode esperar ouvir pessoas sussurrando pelas suas costas que você deve ter segredos ou uma vida vergonhosa para não querer falar dela. Poucos percebem que muitas vezes simplesmente não há nada a se dizer. Repetir as mesmas piadas, contar os mesmos casos mais de uma vez… para que tudo isso?

A verdade é que chegamos a um ponto tão alarmante que consideramos o silêncio do elevador como uma situação embaraçosa! Como podemos ter vergonha de estar no mesmo ambiente que o outro em meio ao silêncio? Que mal ele fez?

Há muito proveito a se tirar da solidão. Analisar nossa vida e as decisões que nos levaram até ali, pensar sobre o que estamos fazendo atualmente e imaginar outras possibilidades… tudo isso nos traz grandes inovações e percepções. O ser humano precisa de um tempo consigo mesmo para poder se tornar uma versão melhor de si e continuar crescendo. Não é que a ajuda dos outros é ruim – muito pelo contrário! Porém estar em constante contato com outras pessoas pode minar nossa confiança e nos levar a desmerecer o valor que temos.

Resumindo, o mundo da introversão não é um local escondido do mundo. Na verdade é um ambiente bem no meio dele, onde todos podem se sentir bem consigo mesmos e também livres para poder se olharem em um espelho e analisarem francamente o que veem.

Antes de ir deixo aqui um TED Talk da Susan Cain que mostra um pouco do que ela fala em seu livro. Espero que gostem!

Referência:
– CAIN, Susan. Quiet – The Power of Introverts in a World that Can’t Stop Talking. 2a Edição New York: Broadway Books. 2013

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