Transcendentalismo, Existencialismo e outros ismos…

Tenho aproveitado o recesso para poder colocar minhas leituras e andanças em dia. A brisa suave, a cidade menos cheia e o constante sentimento de que o tempo escorre pelas minhas mãos fazem com que os dias pareçam pinturas a secar sob o sol.

Para acompanhar essa sensação tenho como companhia dois livros: um apanhado de contos do Kenzaburo Oe e uma narrativa sobre o Existencialismo. Apesar de ter começado a ler cada um sem nenhuma pretensão, descobri que os dois são perfeitos juntos. Muito do que aprendo sobre Sartre me leva de volta ao Oe. E nesse vai e volta entre narrativas, me encontro cada vez mais interessada pela vida.

Eu sempre tive muito interesse pela filosofia do Transcendentalismo, especialmente após uma matéria em que foram trabalhados os textos de Emerson e Thoreau. Com o tempo fui me envolvendo cada vez mais com seus ideais, e em meio a leituras também da geração Beat – que tiveram grande influência deles – me encontrei.

Daí foi um desenvolver atrás do outro, até que cheguei ao Existencialismo. Quanto mais eu leio sobre essa linha filosófica e seus representantes, mais tenho vontade de aprender. Uma nova forma de pensar se abriu, e algumas respostas que os Transcendentalistas nunca conseguiram me dar estão finalmente sendo respondidas. Tudo parece estar encontrando seu lugar.

O café chega na mesa e faço uma pausa. Por um segundo eu faço parte do mundo e tudo parece existir dentro de mim. Sim, Whitman, eu contenho multitudes. O ponteiro segue seu caminho e a certeza da minha própria existência se desfaz.

Continuo a me aprofundar nos livros. Em meio a novos pontos de vista eu comecei a perceber que, apesar de todos serem colocados sobre o guarda-chuva do Existencialismo, cada um dos estudiosos apresentados discordavam em algum momento do movimento. Sartre, Heidegger, Camus… cada um deles tem uma visão distinta de um tema dito comum.

Pensando melhor, o mesmo ocorria no Transcendentalismo: Emerson e Thoreau acabaram se desentendendo em certos pontos e Whitman tomou liberdades em sua poesia. Ainda dá para ir mais longe. Quem não conhece a conturbada relação entre Freud e Jung? Todas as linhas de pensamento acabam encontrando rachaduras e brechas para diferentes desenvolvimentos. Até mesmo no livro que estou lendo, a autora Sarah Bakewell observa que:

“Na verdade, quanto mais revolucionária é uma filosofia, mais provável é que surjam revoltas contra ela, exatamente porque impõe tremendos desafios.” – BAKEWELL (2017)

E isso é óbvio até mesmo porque nada se desenvolve se não aparecem divergências. O que faz com que a humanidade siga em frente é justamente seu constante embato com obstáculos. Nenhum caminho é livre de buracos.

Com tanta divergência, como podem haver ainda tantos ismos? Como podemos até hoje criar tendências, doutrinas e sistemas quando nossas mentes encontram tantas diferenças? E não digo isso visando aumentar a distância entre as pessoas, mas justamente sua união acima de suas diferenças. Passei a vida toda me vendo como uma quase seguidora do Transcendentalismo; quase porque discordo de muitas coisas. Agora encontro tantas respostas no Existencialismo… o que está acontecendo?

Os pássaros do personagem do conto saem das folhas e vem sentar sobre meus ombros. Agora sou eu quem ouve o farfalhar de suas asas e sinto a presença calorosa. Me sinto tentada a ir para um lugar mais escuro; alguém tem de cuidar deles. Tomo um gole do café e o gosto forte ameniza a velocidade dos meus pensamentos. Os pássaros se vão e eu continuo minha leitura.

A verdade é que não tem sentido em ficar se apegando a essas nomenclaturas. Não importa o que eu acredito ou sinto em meu âmago, no fim sou somente uma pessoa com mais dúvidas do que certezas. Nada do que acredito serve para outra pessoa além de mim mesma, então para que me apegar a tantos ismos? Não preciso do peso de mais outra teoria ou crença (olá, Catolicismo!) sobre meus ombros. Já tenho muito o que carregar.

Termino o café e olho para o relógio. Está na hora de ir. Cada um dos meus movimentos é um tanto mole, como se eu estivesse andando em meio a um ambiente aquoso. Um pântano, talvez. Tudo parece distante de mim. 

Ao ligar o carro, o último minuto se esvai; o mundo volta ao normal.

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Referência:

BAKEWELL, Sarah. No Café Existencialista. Trad. Denise Bottman. 1ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

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