Resenha: “O Fuzil de Caça”

O Fuzil de Caça foi escrito por Yasushi Inoue e publicado em 1949. Ambientado no Japão pós-guerra, a história mostra como o tradicional silêncio na sociedade japonesa é mais presente que a sonoridade das palavras.

Ao escrever um poema para uma revista de caça, o narrador espera várias cartas cheias de palavras negativas. Afinal, como alguém pode falar de forma tão pesada sobre a caça quando a revista inteira se baseia na ideia de que é um “esporte saudável”? Contudo, somente uma resposta chega até ele, e ela o surpreende ao contar uma história de amor.

Essa história romântica é contada por meio de três cartas, todas escritas por mulheres e endereçadas à Josuke Misugi. Por meio delas o leitor descobre uma família que lentamente é dividida em função da necessidade humana de encontrar amor em vida. Shoko, sobrinha de Misugi, descobre que sua mãe à beira da morte manteve uma relação amorosa secreta com seu tio. O choque? A irmã e melhor amiga de sua mãe, Midori, é casada com ele. O embate amar x ser amado permeia por todas as narrativas, cada qual mostrando um ângulo diferente sobre a questão. O que cada uma dessas mulheres tem a dizer sobre o assunto?

A primeira carta, escrita pela jovem Shoko, mostra uma visão ainda jovem e ingênua onde amar e ser amado ocorrem simultaneamente. Já a segunda apresenta uma profunda decepção e crescente frieza sobre seu casamento com Misugi, assinada por Midori. A última – e a mais triste – é a de Saiko, mãe de Shoko e amante de Misugi. Nela, Saiko se despede de seu amor para sempre.

Ainda que curto (menos de 100 páginas!) o conto trabalha com profundidade questões como relacionamentos, moralidade e sociedade. Ao trabalhar com três personagens distintas e relativamente distantes em idade, Inoue traz um jogo de narradores que cria uma tensão emocional gigante sobre o leitor. Nos tornamos Misugi, e as palavras que antes lhe pertenciam, agora são direcionadas a nós.

Há também de se parabenizar Inoue pela bela lírica e habilidade na escrita. Cada carta soa diferente, aumentando a sensação de que foram realmente escritas por pessoas distintas; o uso de palavras, a estrutura diferenciada… ele pensou em tudo. Considerando o tamanho diminuto do conto, é difícil acreditar que tantas coisas poderiam ser contadas.

Considerando que é a primeira obra dele que leio, fiquei bastante impressionada. Por ser bem curto é uma ótima recomendação para aqueles que nunca tiveram contato com algum escritor japonês. Sua escrita lembra bastante a de Kenzaburo Oe, especialmente pela sua relação com o pós-guerra.

Mal posso esperar para encontrar mais livros escritos por ele!

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