Palavras ao vento

Recentemente um grupo de estudos do qual participo se propôs a fazer leituras dramáticas de textos de Shakespeare, Chaucer e Milton. Apesar do desconforto inicial que a ideia trouxe – a maior parte do grupo consiste de pessoas bem tímidas – todos acabaram participando, e as leituras das mais interessantes resultaram dessa dinâmica.

O ato da leitura é individualista. Ainda que muitos gostem de discutir sobre um texto sem parar, é muito complicado conseguir fazer o outro ver pelo seu ponto de vista. Muitas vezes é uma questão de como a pessoa ouviu o diálogo em sua mente, como entendeu qual seria o tom de voz do narrador e as intenções do autor.

E esse não é um problema somente da literatura. Quantas brigas ou reações são mal interpretadas em conversas por mensagem? Principalmente nos dias de hoje, escrever um email ou mandar uma mensagem de texto é sempre arriscado, pois nunca se sabe qual vai ser a reação do receptor. Poucos são aqueles que conseguem ler uma frase sem ponderar qual o verdadeiro sentimento do emissor.

Contudo, a leitura em voz alta consegue quebrar essa distância. Durante várias apresentações muitas pessoas da audiência reagiam surpresas; eu também me surpreendi várias vezes! Textos que eu sempre li com certa ironia mudavam completamente quando um dos leitores colocava um tom mais brincalhão ou mesmo mais sério; uma cena de Romeu e Julieta se tornou mais saudosista do que romântica, um trecho do Conto do Moleiro soou mais como uma crítica do que uma brincadeira e um dos discursos de Satã em Paraíso Perdido lembrou muito a forma de falar de um político. Todas as apresentações abriram portas para novas formas de se pensar a história.

Isso tudo parece ser bem óbvio, mas curiosamente não é trabalhado no curso de Letras. A forma com que uma frase é dita pode modificar até mesmo as palavras, e isso é passado batido na maioria dos cursos. Diversas vezes uma fala ou frase tem seu significado debatido em sala, mas ao ler em voz alta o trecho o leitor mantém um tom robótico e sem emoção. Talvez seja por esse motivo que professores descartam o ponto de vistas dos alunos, pois eles não enxergam o tom que o aluno enxergou.

“Ah, mas quando o autor gravou o audiobook…”
“Só que eu vi em uma entrevista com o autor que…”
“Em sua biografia ele disse que…”

E aí retornamos para a controvérsia sobre a propriedade da leitura. A história pode até ser posse de quem a criou, mas sua leitura é posse do leitor. O autor pode até subir uma montanha e gritar para o mundo o que ele quis dizer em determinado trecho, porém o que vai valer é como a pessoa que leu entendeu as palavras.

A leitura em voz alta e com intonação é de suma importância em discussões literárias, e deveria ser mais trabalhada e cobrada nas universidades e até mesmo em escolas. Quem sabe assim os debates se tornem mais abrangentes e interessantes para todas as partes, e a unilateralidade dessas conversas deixe de existir…

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