Pássaro Autor: Shirley Jackson

Quando se fala em terror e afins na literatura, os primeiros nomes a aparecerem são Edgar Alan Poe e H. P. Lovecraft. E como não, levando-se em consideração que suas obras tem aterrorizado gerações? Até hoje se vê coletâneas com seus nomes em livrarias, estudos e no meio universitário. Como todas as grandes obras, eles são a base de todos que procuram seguir a carreira.

Porém há uma mulher que se destaca entre todos esses autores: Shirley Jackson.

Nascida em São Francisco no ano de 1916, Jackson começou a escrever em sua juventude. Aos 17 ingressou na Universidade de Rochester, que largou pouco tempo depois para se dedicar á escrita. Após um período produtivo (ela escrevia um mínimo de mil palavras por dia!), ela ingressou na Universidade de Syracuse e publicou seu primeiro trabalho, Janice, uma narrativa casual de uma jovem sobre sua tentativa de suicídio

A partir de então, suas histórias começaram a ser publicadas nas revistas The New Republic e The New Yorker, e sua pequena fama começou. Curiosamente, as cartas que chegavam até as revistas nem sempre eram tão amigáveis, visto que além dos temas um tanto obscuros, ela era uma mulher.

Em 1948, seu conto The Lottery foi publicado na revista The New Yorker, que gerou a maior correspondência da revista até então. Apesar de ser seu conto mais estudado e conhecido, quase todas as cartas recebidas eram reclamações e palavras de desprezo em relações à autora. Em um artigo na The New Yorker, Ruth Franklin fala um pouco sobre essas cartas, que aliás, foram guardadas por Jackson em sua casa.

Falar da obra de Shirley Jackson não é fácil. Muitos dizem que suas histórias não passam de terror barato ou muito juvenil, enquanto outros assumem que ela é a rainha do gênero. Certo crítico chegou a chamá-la de Virginia Werewolf, desmerecendo seu talento. Em meio a tantas críticas, é difícil convencer as pessoas a lerem seus livros, ainda que hoje a maioria dos leitores reconheçam seu talento.

Jackson faz uso do terror para falar da rotina e da mente humana. Nas palavras de Zoë Heller:

“[…] Similarmente, Jackson não usava elementos sobrenaturais em seu trabalho para  criar arrepios baratos, mas como Poe ou James, ‘para compreender a profundidade da condição humana,’ ou mais particularmente, explorar o ‘dano psicológico ao qual  as mulheres são particularmente propensas.’ “

Suas personagens variam entre pessoas das mais simples às mais complexas, mas todas dividem o mesmo problema: a influência da sociedade. Em suas histórias a interferência da comunidade na vida das personagens femininas mostra como o pensamento massificado lentamente asfixia a vida delas. Essa imagem reflete bastante a época, onde mulheres tinham uma falsa liberdade. Jackson procurava mostrar essa asfixia por meio de suas imagens sombrias, e o que foi sua liberdade na escrita se tornou sua perseguição na fama.

E por onde começar a ler? Tem duas obras que acho essenciais, e por mais que uma delas não seja muito famosa, é certamente encantadora. São elas:

  • The Lottery
    Não tem como não recomendar essa conto. Curto, direto e assustador. Em uma pequena cidade, um sorteio é feito todo ano entre os moradores. Com que objetivo? Só lendo mesmo!
    Apesar de não conter imagens ditas “góticas”, essa pequena história possui uma tensão que reprime o leitor, levando-o a acompanhar a narrativa com certo receio de seu desfecho. Quando a última frase é lida, ao invés de alívio o leitor é deixado com uma vaga sensação de abandono e resignação.
    .
  • We Have Always Lived in the Castle
    Os últimos representantes da família Blackwood – Merricat, Constance e Tio Julian – vivem juntos em uma casa afastada do resto da cidade. Após o restante da família ter sido morta em função de arsênico no açúcar, uma sombra caiu sobre a casa e seus moradores. Os três viviam em relativa paz, até que um primo distante chamado Charles aparece e suas vidas sofrem uma reviravolta.
    Curiosamente não há nada de supernatural, pelo menos não explicitamente. No entanto, as ricas descrições de Jackson e o ar um tanto ingênuo de Merricat criam um ambiente espectral que poucos conseguem reproduzir!

 

Shirley Jackson é e sempre será considerada a rainha do Estranho, pois as críticas que ela conseguia criar a partir do macabro são impecáveis.

Referências:
– KELLER, Zoë. The Haunted Mind of Shirley Jackson. The New Yorker. Acesse aqui.

 

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