Se aproximando do leitor

Ultimamente tenho visto cada vez mais a presença de livros em um formato bem peculiar. Eles trazem consigo documentos, cartas, imagens e até guardanapos! A leitura, que antes era feita de simples palavras sobre uma folha em branco, se tornou em um jogo dinâmico que rapidamente suga o leitor para dentro da história.

O melhor exemplo desse tipo de livro é S.. Concebido por J. J. Abrams e escrito por Doug Dorst. Talvez porque venha da mente de um diretor de cinema, o livro em si não bastasse. Junto a ele, todos os documentos, cartões, mapas e até recortes de jornal mencionados no texto são acrescentados. Diferente da grande maioria, que somente deixa a menção do cartão e o que nele estava escrito, em S. o leitor tem a chance de se sentir parte da história, não somente como expectador, mas ativamente.

Não somente é uma ideia original, como também a narrativa pede por esse complemento. Classificada como uma história dentro de outra (story within a story), acompanhamos a crescente discussão de dois estudantes sobre o livro “O Navio de Teseu”, que na verdade é o livro que o leitor tem em mãos. A relação dos estudantes se encontra nas margens, pois os dois se comunicam por anotações. Tudo o que eles encontram em suas pesquisas e viagens é colocado dentro do livro, então o leitor pode acompanhar cada passo de suas descobertas e tirar suas próprias conclusões.

Outro livro que faz algo muito parecido é a História Secreta de Twin Peaks, de Mark Frost. Contando a história de Twin Peaks e seus mistérios, o livro traz documentos, recortes de jornais e fotos que, junto com um ser misterioso chamado Arquivista e a agente do FBI chamada T.P., vão lentamente formando um histórico de todas as coisas estranhas que aconteceram na pequena cidade antes e depois do famoso seriado. Para aqueles que são fãs da série – que aliás, voltou e está INCRÍVEL – não tem como não se deixar levar pelo grande livro verde.

Apesar de ser envolvente, ele só fica atrás de S. no quesito de complementos. Tudo é colocado no livro como se houvessem criado um grande portfólio com tudo o que conseguiram relacionado ao assunto. Não que isso quebre o encanto, mas fica difícil não desejar algo ao nível do livro de Dorst.

Pensando nesses dois, é quase automática a comparação com livros infantis. A maioria traz um adicional: pelúcias, pop-ups, bonecos… Não somente porque isso chama a atenção das crianças, mas também porque é uma forma de tornar a história em algo próximo da realidade. E mais uma vez, livros como o de Dorst e o de Frost revelam aquilo que quase todos sabemos: adultos também se encantam com essas coisas. Um detalhe diferente, uma extra que faça com que a ilusão da história se torne sua realidade… quem não deseja esse sentimento, mesmo que por alguns minutos?

Como convencer um adulto a comprar o livro? Essa é fácil: torne-o apresentável. E com isso eu não falo da escrita, acredite se quiser. Falo de como ele é feito ou no que ele se baseia. O livro de Frost toma um pedaço da série já conhecida e amada por muitos; Dorst na capa, que imita livros antigos encontrados em bibliotecas.

Em um mundo onde a tecnologia procura transformar tudo em algo próximo ao real, essa nova forma de produzir livros mostra que o mercado literário também tenta acompanhar tamanho desenvolvimento. É animador ver que não há mais tanta oposição ao novo por parte desse mercado, ao mesmo tempo em que é um tanto doloroso perceber que está cada vez mais difícil de prender a atenção das pessoas nesse mundo tão líquido, como diria Zygmunt Bauman.

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