Palavrarte

Recentemente li Do Not Say We Have Nothing, de Madeleine Thien. Talvez um dos livros mais bonitos que já li, ele parece pertencer ao mundo ao mesmo tempo em que conta histórias pessoais de dor e alegria. Grande parte do livro se situa entre os anos 1956-1980, época em que a China passava por um período de fome extrema e perseguição política. Em meio a tamanha tensão, Thien apresenta a vida em sua forma mais humana e inocente.

Ainda que o livro tenha muito a oferecer pela história e pelos personagens, o que realmente me chamou a atenção foi outra coisa: os caracteres chineses. Logo no início do livro o leitor depara-se com pequenas amostras das construções deles e como algumas palavras se formam. Eu sei que não há nada de novo nisso, mas não pude deixar de notar como era interessante o modo com que Thien ia montando a narrativa sobre os caracteres.

Essa brincadeira com a língua me lembrou também do conto The Literomancer, de Ken Liu. Nele tem-se a mesma quebra dos caracteres de forma a criar um outro significado. A delicadeza e o respeito com que ambos os autores tratam a língua a transformam em algo além; eles a transformam em arte.

A partir do momento em que a palavra “arte” surgiu na minha mente, um nome que me perseguiu bastante por um tempo voltou para me assombrar: Ezra Pound. Minhas dificuldades com ele à parte, seu estudo dos ideogramas chineses sempre me impressionou. Na época em que o estudei eu não tinha conhecimento da língua, e ler as palavras de Pound foi uma introdução um pouco… técnica demais. Somente mais tarde consegui compreender parte do que ele queria dizer.

Os ideogramas chineses são, acima de tudo, poesia em si mesmos. Sei que isso parece desmerecer outras línguas, mas não consigo enxergar uma forma melhor de colocar o que sinto. A grandeza da imagem em relação à língua cria toda uma forma distinta de pensar. Agora, mais do que nunca, fazem sentido as poesias e algumas construções que vi em matérias sobre linguagem poética. Todo o movimento de poesia concreta começa a tomar uma forma mais definida. Onde antes haviam sombras agora vejo traços.

Só falar não parece ter sentido, então trago aqui um exemplo do livro de Thien:

O ideograma 門 significa “portão”. Se acrescentado uma boca 口, tem-se perguntar 問.

Essa construção, ainda que lógica quando se pensa no nível linguístico, não seria possível se não fossem os ideogramas. Essa ideia de que um desenho complementa outro cria uma nova forma de ver a língua. No português, a maioria das vezes em que se acrescenta algo há uma raiz, criam-se adjetivos, advérbios e outros. No caso do chinês, outras palavras são criadas, cortando os laços com a palavra usada como raiz. Os ideogramas criam uma língua visual e cultural em oposição ao português, que segue um modo mais lógico e concreto. Esse é um pequeno exemplo também de como a língua tem um certo peso na cultura e vice-versa.

Sei que ainda tenho que ler bastante sobre os ideogramas para entendê-los com mais profundidade. Sinto que tem muito mais que consigo captar mas sem entender completamente. O mundo oferece tanto para se aprender, mas de onde tiramos tempo para tudo isso…?

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