Sobre Callipathos

Callipathos.
[noun]
Informal: beautiful suffering; beautiful pain; the romanticisation of pain.
Etymology: from Ancient Greek καλός (kalos), κάλλος (kallos) – ‘beautiful’ and πάθος (pathos) – ‘suffering’.

Na primeira vez em que li essa palavra eu passei batido. No momento ela me parecera só mais uma palavra estranha, uma a mais entre as mil que leio a cada dia. Em um mundo onde o que se fala é cada vez menos importante e pensado, que diferença faz aprender mais uma? Poucos ainda possuem aquela curiosidade de aumentar seu vocabulário, de ultrapassar os limites verbais impostos por uma sociedade que só pensa de forma minimalista. Deixando-me levar pela maioria, tratei essa palavra como muitas outras: joguei-a de lado e segui com minha leitura.

Porém algumas palavras são como ímãs. Como um líquido que escorre lentamente pelos veios de uma pedra, uma vez lidas elas se misturam com o nosso dia-a-dia, forçando sua entrada em nossa mente. E foi exatamente assim que aconteceu comigo: callipathos foi se esgueirando pelos cantos da minha alma, até encontrar um lugar onde ficar.

A maioria dos blogs que sigo são voltados para poesias e contos. Seus temas variam de corações partidos à pensamentos nefastos e mortes, e após ler alguns percebi que por mais variados que fossem os temas, todos possuíam algo em comum: o fato de terem sido criados a partir do sofrimento. Um dos autores já até relatara como achava curioso que as pessoas usassem adjetivos como doce e belo quando falavam de seus poemas sobre decepções e tristeza. A maioria dos escritores usavam de dores, desilusões, amargura e até mesmo ódio para criar belas poesias, que mesmo em meio a nomes brutais e cruéis, formavam algo muito tocante e belo.

Sem perceber me peguei pensando na palavra que lera um tempo atrás: callipathos. A beleza da dor. Mas como eu nunca tinha me dado conta da presença dessa palavra, dessa transformação que ocorre na escrita? Pensei em alguns livros como The Heart is a Lonely Hunter e A Montanha e o Rio – ambos com histórias comoventes – e lembrei de como eu os descrevo no geral: muito bonitos, porém desoladores.

Quantos poemas sobre corações partidos não encantam gerações? Quantos textos tomados pela amargura e pela dor não são considerados incrivelmente belos em sua essência? Na literatura mundial a dor não só é um dos temas mais trabalhos, como também é um dos mais lidos. Ela é escrita com tanta sinceridade e vida que penetra nas pessoas como facas bem afiadas. Na escrita, sofrer deixa de ser algo ruim e passa a ser visto como um ato romântico e vivo. É de se surpreender a quantidade de pessoas que se interessam por esse tipo de leitura. Aqueles que nunca sentiram tais dores parecem desejar secretamente sentir algo tão forte; as que já sentiram gostam de ler sobre ela e relembrar das próprias amarguras. Vemos na dor algo de belo, de vivo. É como se a dor fosse uma prova de nossa existência.

Analisando melhor, talvez a dor não seja uma prova de nossa existência em si, mas sim de nossa fragilidade – fragilidade que nos torna humanos. Talvez a dor seja uma lembrança constante dos nossos limites e de como nossos sentimentos podem ser não nossa maior arma, mas nosso ponto fraco. Por isso que temos essa visão tão romântica do sofrimento. Ele nos lembra de nossa humanidade, de nossa frágil constituição. Nos consideramos seres racionais e superiores aos outros animais, mas a angústia nos lembra que somos como qualquer outro ser vivo. Nascemos, crescemos, amamos e sofremos, como qualquer outro animal.

Um exemplo é o fato de sermos individualistas na alegria e unidos na tristeza. Quando uma pessoa está alegre, sua reação mais comum é a de contar para todo mundo, mas não a fim de dividir essa alegria com alguém e sim de mostrar o quanto se está feliz. Porém quando se está triste, o comportamento muda. Normalmente procura-se alguém com quem conversar, espera-se atenção e que a pessoa fique triste com você (com algumas exceções).

Por outro lado, se isso for um caso de universalização então callipathos se deve simplesmente à lembrança quase inconsciente de que, antes de tudo, somos iguais. A procura frenética por textos que possuam temas dolorosos é meramente uma forma de poder atingir esse ponto frágil e se deixar senti-lo, sem culpa nem medo de que seja considerado inferior por isso. Uma forma de fazer parte do mundo sem tomar para si o peso de todos.

Callipathos. A beleza e lembrança de nossa essência.

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Referência:

Foto: Ophelia, por John Everett

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