Qual o significado da literatura?

Lá estava eu, bebendo uma xícara de café em um dos meus lugares favoritos quando um grupo de adolescentes passou pela entrada. Barulhentos e cheios de si, eles gritavam ao invés de falar, empurrando um ao outro pela calçada. Apesar de ficar um pouco nervosa com a presença deles, não pude deixar de sorrir. Não sinto a menor falta da época escolar, mas sim da vida despreocupada que todo mundo pareia ter.

À medida em que se aproximavam, comecei a ouvir o que discutiam. Eles tinham acabado de sair de um teste de Português, e estavam comparando e rindo das respostas. Em meio a toda baderna, ouvi um deles dizer:

“Não aguento essas perguntas de literatura! Estão sempre dizendo coisas como ‘quando o fulano mexeu a sopa o autor quis dizer que a vida era um ato psicológico ao reverso e tal’. Aposto que se perguntassem pra ele, ele ia dizer que o cara só tava mexendo a droga da sopa!”

Não tive como segurar o riso. Como gosto muito de ler, essas interpretações costumam me empolgar bastante. Ainda sim, eu entendo perfeitamente o que ele quis dizer. Muitas vezes já me peguei pensando exatamente a mesma coisa, então quem sou eu para julgá-lo? Tem até mesmo aquela anedota sobre o repórter que perguntou ao Drummond sobre o que significava a “pedra no meio do caminho”. Surpreso, o poeta olhou para o repórter e diz: “Não está claro? Significa que tinha uma pedra no meio do caminho!”

Verdade ou mentira, a anedota diz muito sobre essa constante preocupação com interpretação. Algumas teorias beiram o absurdo, e mesmo tendo bons argumentos fica difícil aceita-la; por outro lado, também tem sempre aquele momento em que tudo parece questionável e um simples “porque o autor quis assim” funciona melhor. Isso sem falar nas discussões entre leitores e suas divergências quanto ao que entenderam do que foi lido.

Esse é um dos motivos pelos quais amo literatura. As pessoas costumam dizer que podemos aprender muito sobre o autor por sua escrita. Eu discordo. Acredito que aprendemos muito sobre nós mesmos. As palavras podem estar na página porque o autor queria dizer algo, mas o leitor é quem as interpreta. Obviamente, aquele que lê não vai necessariamente receber a mesma mensagem que aquele que escreveu estava tentando passar. Viu como essa relação é bonita?

Claro que estudos e pesquisas levam os interessados a chegarem bem perto de dizer exatamente qual era o objetivo do escritor. Porém isso só seve para aqueles que querem seguir uma vertente mais científica da leitura. Quando alguém lê simplesmente por diversão deve entender o que quiser. A leitura é uma forma de desenvolver a criatividade, a compreensão e também um jeito curioso de se conhecer. A forma com que o leitor vai entender o mar de palavras em que ele está nadando é moldado em grande parte pela forma com que o mundo se desdobra ao seu redor.

A frase “nós somos aquilo que lemos” não é tão verdadeira assim. Um livro pode abrir a nossa mente e nos mostrar coisas que jamais imaginamos, mas depende unicamente de nós aceitar o que ele oferece. O poder da leitura varia de acordo com a nossa propensão a ouvi-la. Uma passagem que foi esclarecedora para mim talvez não surta efeito nenhum em você.

Ainda lembro de quando fiz um colega ler um livro do Haruki Murakami. Eu não conseguia parar de falar dele, e como nosso gosto literária é bem parecido, ele acabou cedendo. Quando ele finalmente terminou de ler, a primeira coisa que ouvi foi “Um pouco sem graça, não? Achei meio cansativo e estranho.”. Meu primeiro instinto foi pular em sua garganta, mas tentei me conter. Começamos a discutir sobre algumas passagens e, depois de algumas intermináveis horas, chegamos a um ‘meio acordo’ sobre o livro.

Nós tivemos respostas completamente diferentes, o que é incrível. Provavelmente o grupo de adolescentes percebeu a sopa de uma forma completamente diferente do professor. Tudo bem; é para isso que a literatura está lá. Mentes diversas, realidades opostas… Não temos como sempre chegar ao mesmo lugar, ainda mais com algo tão subjetivo quanto uma história. Não somos o mesmo, e na viagem para o interior, somente o próprio leitor pode enxergar a verdade.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s