“Butcher’s Crossing” e a Literatura Transcendentalista

A literatura Transcendentalista é marcada por nomes como Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau. Esses dois autores começaram uma revolução literária e filosófica que viria a se tornar a base de quase todo o pensamento literário norte-americano. Os ideais de liberdade, humildade e principalmente a necessidade de se encontrar em meio à natureza são resquícios da revolução ideológica que Emerson e Thoreau começaram.

Esse movimento possui um cânone fechado, estritamente delineado por críticos renomados, como Harold Bloom. Porém há um autor não muito conhecido chamado John Williams que também escreveu um livro que segue esses ideais: Butcher’s Crossing. Curiosamente, o livro foi bem recebido pela crítica e pelo público da época, mas logo depois foi esquecido. Reeditado recentemente e publicado pela primeira vez no Brasil em 2016, o romance é considerado um western em sua melhor forma.

Porém há mais do que somente um romance western. A obra coloca em prática tudo o que Emerson e Thoreau idealizaram em seus ensaios. O Transcendentalismo deixa de ser ideias e pensamentos e passa para a prática. Essa característica pode ser observada de início pelo personagem principal, Will Andrews. Jovem, ele abandona seus estudos em Harvard e vai para uma cidade afastada para encontrar “uma forma mais verdadeira de si mesmo” (Butcher’s Crossing, p. 330).

Essa procura do self na natureza é um dos principais ideais defendidos por Thoreau. Em um trecho de Walden, ele observa:

“Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os fatos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha para ensinar em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido.” (THOREAU, 2016)

Isso é exatamente o que o personagem Andrews faz. Com pouco dinheiro, ele vai para uma cidade pequena no meio de planícies para buscar “a origem e a salvação do seu mundo, um mundo que sempre parecia recusar as próprias origens, ao invés de buscá-las.” (Idem). Ele acredita que somente em contato com a vida simples e selvagem do interior ele será capaz de encontrar a si mesmo, sua essência perdida em meio à vida na cidade grande. Em vários momentos ele é questionado por sua escolha de abandonar três anos de estudos em Harvard, ao que sempre responde estar procurando algo mais do que somente a vida na cidade, onde ele só ouve e nada fala.

Se Andrews é a personificação das ideias contidas em Walden, o personagem Miller representa aqueles visto em Self-Reliance¹, de Emerson. Miller é um homem auto-suficiente, que por ser tal, se mantém distante dos outros ainda que dentro da cidade. As pessoas ao seu redor se voltam para ele com grande facilidade, pelo seu modo confiante. Ele toma conta de si e não demonstra medo perante as adversidades do caminho, muito menos desiste em meio à descrença daqueles que o seguem.

Além desses dois personagens, há a descrição daqueles que se encontram na cidade. A cidade como um todo pode ser percebida como uma exemplificação do ensaio chamado Economia, de Thoreau. Nesse texto, Thoreau observa o desespero silencioso em que a maioria dos homens vivem. Esse desespero é visto no dono do bar, no religioso Charley Hodge – ajudante de Miller – e na prostituta Francine, que não vê diversão ou prazer no que faz porque “este vem depois da obrigação.” (Walden, p. 51) O próprio Miller parafraseia essa ideia, dizendo que o homem gasta dinheiro em uma procura por prazer depois de um longo dia de trabalho; prazer esse que nunca é encontrado.

Há uma certa ironia na forma com que Williams descreve a cidade. Sabe-se que ele não tinha muito gosto pelo que Thoreau escreveu, talvez usando seu desinteresse para criar essa obra como uma grande ironia. O que ele não esperava é que sua descrição levaria crédito por sua proximidade com a realidade, tornando a obra mais uma ode ao Transcendentalismo do que uma crítica.

A jornada de Miller e seu pequeno grupo em busca da manada de búfalos toma grande parte do romance. Há dois momentos em que o personagem principal, Andrews, se vê surpreso ante a paisagem que o cerca. Na primeira, há um certo choque, pois ele esperava rever as gravuras que vira em revistas e livros quando morava em Boston. Ao invés disso ele encontrou “a planura, o vazio, o mar imperturbável da relva amarela.”.

Nesse primeiro encontro com a natureza em sua forma mais pura, é impossível não voltar ao comentário de Emerson em Nature, mais precisamente no capítulo intitulado Beauty, onde ele observa que a forma com que o ser percebe o mundo não é natural, e sim idealizada em nossa mente. Andrews tinha uma ideia bem diferente do que encontraria, por isso seu choque.

Com a contínua exposição ao mundo natural, Andrews começa a se acostumar com a presença de tudo a sua volta. Ele vai começando a perceber que consegue diferenciar as várias folhas de uma árvore, ao invés de só observar uma grande massa verde; os pássaros já não são mais pontos pretos e sim massas bem contornadas e fortes; o vento sibila em seu ouvido, ao invés de só fazer barulho. Tudo isso leva ao seu segundo momento de surpresa ao ver uma paisagem selvagem: ele se sente atraído, como se um grande ímã o puxasse:

“[…]mas ao contrário da sensação de absorção que experimentara na pradaria anônima, essa sensação prometia, ainda que vagamente, uma riqueza e uma satisfação plena para as quais ele não tinha nenhum nome.” (WILLIAMS, 2016)

O segundo momento de absorção pela natureza, mostra o desenvolvimento de sua relação com o meio à sua volta. Quando Thoreau decide ir morar em Walden, longe da civilização, é exatamente à procura disso: a criação de uma conexão perdida com o meio, conexão que foi esquecida por se passar muito tempo em sociedade. Andrews consegue alcançar esse momento graças a sua exposição contínua e solitária – solidão esta causada por seu distanciamento dos outros que o acompanham na caçada.

Essa extensa exposição ao mundo natural, longe de qualquer tipo de civilização, dá aos personagens uma sensação de monotonia e quase transcendência. Aqui os críticos se dividem quanto ao modo que esse momento de dita transcendência ocorre. Archie Bland considera o trecho “ironicamente uma versão seca do ideal de Emerson”, pois o lado de Deus seria justamente sua humanidade.

Porém é justamente isso que Emerson quer dizer. Na visão do transcendentalismo, a natureza é sagrada, pois ela e Deus são uma só coisa. O conceito de oversoul – um espírito universal – supõe que a conexão entre todos os seres é tão profunda que, ao matar outro ser, nos matamos de certa forma. Essa morte dual pode criar dois tipos de reação: distanciamento ou aproximação.

Ao matar o primeiro búfalo, Miller leva Andrews orgulhosamente para perto do animal morto. Andrews, assim que vê o corpo sem vida ao seus pés, sente sua cabeça se encher de pensamentos contraditórios. Ao mesmo tempo em que a adrenalina da caçada e a curiosidade o envolvem, o orgulho selvagem que o animal antes tinha, se esvai. Andrews fica ligeiramente chocado com proximidade que sente em relação ao animal. Esse momento de reconhecimento da dor do búfalo com a sua própria é um exemplo da ideia de oversoul, que foi de extrema influência no que Emerson escreveu.

A matança continua, e quase ao final do abate Miller começa a se irritar e se torna violento. Com a neve chegando, todos devem retornar à Butcher’s Crossing para evitar um possível isolamento e congelamento. Andrews descreve seu olhar brando e seus modos quase naturais de atirar nos búfalos. Chega até a compará-lo com um animal selvagem, dizendo que pouco do homem dentro dele restou.

Esse é um momento delicado na narrativa, pois há uma certa ambiguidade no que é dito. O leitor tanto pode entender que Miller enlouquece a ponto de se tornar um animal quanto pode entender que Andrews – que é quem conta a história – está simplesmente exagerando o que vê, considerando que os outros dois companheiros de caça parecem não notar seus modos. A primeira opção tem mais probabilidade de ser a correta, considerando-se que Emerson já havia avisado o leitor sobre os perigos dos constantes ataques à natureza: o homem começa a perder a essência de si mesmo. Essa mesma ideia é retomada por Thoreau no capítulo entitulado Economia, de Walden, onde ele percebe no capitalismo² e na necessidade por ganhos materiais uma degradação do ser. Miller é o exemplo de que a constante necessidade humana de se conseguir cada vez mais bens materiais só nos afasta de nossas raízes, ao invés de nos tornar mais próximos uns dos outros.

Quando finalmente voltam à cidade (após um ano), descobrem um lugar vazio e caindo aos pedaços. Andando entre o que sobrara de algumas casas e sem encontrar ninguém pela rua, se perguntam o que pode ter acontecido. Quando enfim encontram alguém, descobrem que todos que ali viviam foram procurar outro lugar para viver, pois os gados haviam morrido e o ouro jamais encontrado. Miller entra em estado de choque e não pronuncia uma só palavra.

Esse desencontro com a sociedade é recebida de modo indiferente por Andrews. Isso se dá pelo fato de que, ao contrário dos outros, ele ainda não conseguiu encontrar o que procurava. Em Walden, Thoreau observa que somente voltou quando finalmente encontrou e entendeu o que procurava em sua relação com o selvagem; Andrew, por outro lado, falhou. Isso torna sua volta mais dolorosa, e sua partida ao fim do livro, uma certeza.

Ao fim do romance, Andrews olha para a cidade e decide ir embora. Porém ele não tem rumo e nem está preocupado com isso. Ele simplesmente sente o “ar fragrante que vinha da relva nova e se mesclava ao suor rançoso do cavalo.”. O que ele procura, não sabe; mas vai na mesma direção de onde voltou com Miller. Ele volta para se encontrar novamente.

Não há como negar que há muitas semelhanças e estruturas retiradas diretamente do movimento Transcendentalista. John Williams se mostrou não somente um conhecedor de tais ideais como também os colocou a prova, escrevendo um livro que ilustra da forma mais pura tudo aquilo que Emerson e Thoreau escreveram em seus ensaios. Talvez esteja na hora de analisar mais um vez o romance Butcher’s Crossing e colocá-lo no movimento literário ao qual realmente pertence, ao invés de deixá-lo se perder novamente na literatura norte- americana como um simples romance western.

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Notas: 
¹O título foi mantido em inglês pela falta de uma palavra consiga traduzir seu significado de acordo com o texto.
²Adam Morton, professor de Economia Política na Universidade de Sidney, relata de forma mais aprofundada em seu artigo Long read: the ideology of nature in Butcher’s Crossing a crítica ao capitalismo encontrada no romance.

Referência:
– BLAND, Archie. Butcher’s Crossing, by John Williams: Book Review., 2013. Disponível em: <www.independent.co.uk/arts-entertainment/books/reviews/butchers- crossing-by-john-williams-book-review-8985628.html>. Acesso em: 27 de nov. 2016.

– EMERSON, Ralph Waldo. Nature. United Kingdom, London: Penguin Classics, 2003.

– EMERSON, Ralph Waldo. Self-Reliance. New York: Dover Publications, 1993.-

– MORTON, Adam. Long read: the ideology of nature in Butcher’s Crossing. Disponível em: <http://theconversation.com/long-read-the-ideology-of-nature-in-butchers- crossing-34658>. Acesso em: 18 de nov. 2016.

– THOREAU, Henry David. A Desobediência Civil / Walden. Trad. Sérgio Karam. Porto Alegre, RS: L&PM, 2016

– WILLIAMS, John. Butcher’s Crossing. Trad. Alexandre Barbosa de Souza. Rio de Janeiro, RJ: Rádio Londres, 2016

 

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