Som e Palavras

Recentemente uma música não tem saído da minha cabeça: Spirits, da banda The Strumbellas. Inicialmente eu gostava de como a voz do cantor me lembrava outra banda da qual sempre gostei, e a ouvia sem pensar na letra. Porém como é impossível deixar suas palavras passarem despercebidas, percebi que havia outra razão para eu gostar tanto dela.

Algo da letra tentava entrar na minha mente, de forma que eu passei um bom tempo tentando entender o que se passava dentro de mim. Uma frase em particular ressoava como um eterno eco: “the gun still rattles” (“a arma ainda chocalha”).

Ainda que soe um tanto mórbido, me peguei pensando em um livro de Robert Louis Stevenson chamado “O Clube do Suicídio”. Na primeira vez em que o li, detestei a forma com que o suicídio era tratado como um simples jogo, como se o desejo de terminar a vida fosse algo comparado a uma simples partida de baralho. Suicídio não é e jamais será algo simples ou leve.

O livro na verdade consta de três histórias ligadas entre si, porém somente na primeira a premissa desse clube é tratada de forma completa. O presidente do clube embaralha 52 cartas e as divide entre os participantes. Aquele que tirar o ás de espadas deverá morrer, enquanto o que tirar o ás de paus deverá ser o assassino. Apesar de ter alguém para cometer o crime, ainda consideram suicídio porque todos que ali vão tem como objetivo  morrer, porém não possuem a coragem para se matar.

Quando li essas histórias pela primeira vez eu havia achado a premissa desse clube absurda, como uma brincadeira de mal gosto. Lembro até mesmo de ter ficado um tanto decepcionada com Stevenson, um autor que sempre gostei bastante. Contudo, a música do The Strumbellas entra em cena.

Logo no início da música, seguem os versos:

“I been looking at the stars tonight                       “Eu tenho olhado as estrelas essa noite
And I think oh, how I miss that bright sun           e penso oh, como sinto falta do forte sol
I’ll be a dreamer ’til the day I die                            Serei um sonhador até morrer
But they say oh, how the good die young”            mas eles dizem oh, como os bons morrem                    .                                                                      cedo”

Eu me perguntava por que pessoas participariam de um grupo desse, mas no fundo eu achava que já sabia a resposta. Viver todo dia como se nunca mais fosse ser feliz é um fardo que ninguém merece carregar, ainda mais quando não se vê uma saída para isso. Os pensamentos continuam rodando na mente:

“I got guns in my head and they won’t go      “Tem armas em minha mente e elas não se Spirits in my head and they won’t go”                   vão
                                                                                     Spirits em minha mente e eles não se vão” 

Mesmo que a pessoa encontre forças para viver a rotina, os pensamentos ainda estão lá, bem escondidos no canto da mente. O que gosto principalmente dessa parte é como a palavra spirits pode ser traduzida tanto para bebida quanto para sombras, simpatizando tanto com os que são perseguidos por seus próprios monstros quanto aqueles que encontram a saída em um(s) copo(s) de bebida.

Até esse ponto, tudo na música leva aquele que ouve à conclusão de que talvez esse clube seja uma boa ideia. Talvez seja a força final necessária. Mas então, bem no fim, a música muda e um trecho muito interessante surge:

“And I don’t want a never ending life                 “E eu não quero ter uma vida eterna
I just want to be alive while I’m here”                 Só quero estar vivo enquanto estou aqui.”

E isso mostra exatamente o verdadeiro ponto do clube do suicídio. O que inicialmente parecia ser um grupo de pessoas que não tinham coragem de se matar se torna um grupo onde as pessoas procuram se sentir vivos. No fundo nenhum dos participantes realmente procura a morte; eles procuram uma forma de sentir que estão no mundo, que há algo maior do que a rotina do dia-a-dia. Até mesmo um personagem faz uma observação sobre isso:

“Ora meu senhor, este clube é o templo do êxtase. […] Tentei de tudo, senhor, […] tudo, sem exceção, e declaro ao senhor, pela minha honra: Não há nada que não tenha sido excessiva e falsamente superestimado. As pessoas perdem tempo com amor. Agora, eu, de minha parte, nego que o amor seja uma paixão forte. O medo é que é a paixão forte; é com o medo que o senhor deve brincar, se o que deseja é experimentar uma intensa alegria de viver.” (STEVENSON, 2015)

O que eu não havia entendido na época, percebi agora. O clube do suicídio é todo construído a partir da vontade de uma pessoa de sentir algo tão forte que tire a rotina do caminho.

Claro que no livro essa ideia foi levada a um ponto muito maior, mas na verdade é uma realidade que assola a vida da humanidade. Principalmente nos dias de hoje é comum ver cada vez mais pessoas defendendo a ideia de “viver a vida ao máximo”, sem pensar realmente no que seria isso. Para alguns, esportes – principalmente os de alto risco – são uma saída; para outros, ir para um bar ou uma festa sempre que possível cobre esse lado.

A verdade é que tudo isso serve como uma forma de tentar dar sentido a uma vida que muitas vezes parece vazia. E isso retorna à discussão que talvez seja minha crise pessoal: como tampar ou encher o vazio que assola a mente?

No fim, acho que tanto a música quanto a história tentam dizer a mesma. As duas questionam as mesmas dores e procuram a mesma solução. A conversa entre elas completa a beleza da subjetividade artística humana.

Referências:
Música: Spirits, The Strumbellas. Ouça aqui.

STEVENSON, Robert Louis. O Clube do Suicídio. Trad. de Andréa Rocha. SP: Cosac Naify, 2015

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