Quem reza pelo diabo?

Há alguns anos atrás eu me deparei com a citação que viria a ser uma das minhas favoritas:

“Quem ora por Satã? Quem, durante oito séculos, teve o sentido humano de orar pelo único pecador que mais precisava de orações, o nosso único semelhante e irmão que mais necessitava de estímulo e que, todavia, nenhum teve; o único pecador, entre todos nós, que tinha o mais elevado e o mais claro direito às orações diurnas e noturnas de todos os cristãos, pela simples e indiscutível razão de que sua necessidade era a primeira e a maior de todas, já que era ele o supremo entre os pecadores?” – TWAIN, Mark

Eu sempre fui atormentada pela minha religião. Aprendi com ela muita coisa, mas também sou contra muito do que aprendi. A minha confusão interior quanto ao que significa ser cristã já me trouxe inúmeras discussões e dúvidas, principalmente quando me vejo perante observações como a de Mark Twain.

Sempre achei curioso o fato de que muitos pedem pela própria salvação. Fez algo errado? “Senhor, me perdoe, pois pequei!”. E ainda que digam que somente é válido se o arrependimento vier do coração, quem me garante que no momento não era verdadeiro? Amanhã já posso ter esquecido. Toda essa construção religiosa em torno da salvação e do pecado sempre foram um tanto vagos para mim, considerando que sentimentos são passageiros. O que posso ver com desgosto hoje pode se tornar algo comum amanhã.

E quanto a pedir a salvação do outro? Esse é mais difícil ainda. Como conseguir fechar os olhos para aquele que te fez um grande mal e simplesmente pedir que Deus o perdoe, pois “ele não sabe o que faz.”? E o pior, como ter certeza de que o certo na questão é você e não o outro? Muitas vezes as pessoas cometem erros e não conseguem enxergar. Isso sem contar com questões que talvez sejam certas para uns e erradas para outros.

Quando Twain pergunta quem ora por Satã, acho fácil dizer que ninguém. É quase óbvio. As pessoas precisam acreditar que há alguém pior do que elas; o diabo se tornou o grande bode expiatório da humanidade. Como pedir perdão por alguém que, como muitos adoram dizer, “nos leva a cometer atos horríveis”? Se ele for perdoado, quem tomará nossos pecados para si?

A imagem do diabo em si sempre foi um tanto estranha. Voltamos àquela velha discussão: se o Senhor é bom, porque ele condenaria o diabo para um sofrimento eterno? Charges que me perdoem, mas tenho certeza de que ele não é feliz no inferno. Ninguém seria. Ainda mais um ser que, teoricamente, fora um anjo. E mais, ainda hoje não conseguiram me oferecer uma explicação convincente quanto à razão pela qual ele Deus jogou sua ira sobre ele. Ainda mais um Deus que, acredito eu, é justo e bom.

Mas considere que as pessoas peçam perdão por ele: o que elas ganhariam em troca? Porque afinal, como diz a oração do Pai Nosso: “perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido.”. Seria cômico, se não fosse triste, o fato de que esperamos ser perdoados porque fazemos o mesmo em relação aos outros. Até mesmo na religião existe uma troca, um tipo de reação obrigatória. E se alguém tivesse a certeza de que não seria perdoado? Sera que essa pessoa pediria perdão por aqueles que lhe fazem mal?

Toda essa discussão me remete a um livro chamado “Azazel”, de Youssef Ziedan. A história gira em torno de um monge chamado Hipa e suas provações, e em um dos últimos capítulos ele tem uma conversa um tanto interessante com Azazel sobre sua existência. Azazel diz que ele é a antítese de Deus, e por isso ele existirá enquanto Deus existir. Após uma pequena discussão, Hipa finalmente pergunta o que ele quer, ao que Azazel responde:

“Eu, Hipa, sou você. Eu sou eles. Você me vê presente onde quiser, ou onde eles quiserem. Estou sempre presente para aliviar o fardo, afastar o peso e absolver todo condenado. Sou o querer, o querente e o quisto. Sou o servo dos sujeitos e o estimulador dos sujeitadores a perseguirem os fios de suas ilusões.” – ZIEDAN (2015)

Ninguém jamais irá orar por Satã, não por ele não merecer, mas porque senão todos terão de carregar os próprios pecados. A partir do momento em que ele for perdoado, ninguém mais poderá contar com uma desculpa para seus atos, uma forma de aliviar a consciência pesada. E poucos estão dispostos a isso…

Referências:
ZIEDAN, Youssef. Azazel. Tradução de Safa A-C Jubran. Rio de Janeiro: Record, 2015

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