Resenha: ‘A Little Life’

Recentemente eu li o livro A Little Life, de Hanya Yanagihara. Fazia tempo que eu não me via tão abalada por uma história tão… comum. Apesar de já ter lido outros desde que o terminei, sinto que ainda não o superei.

A Little Life revolve ao redor de quatro amigos: Willem, JB, Malcolm e Jude. Desde quando se conheceram até que a vida adulta os toma e reclama suas vidas, a história sobre seus relacionamentos e seus monstros é contada de forma direta, sem nenhuma tentativa de embelezar o que acontece. Essa forma crua é o que torna o livro tão bonito. Em momento algum Yanagihara transforma a história em algo maior do que é, mostrando que não importa a dor que sentimos: nenhuma pode ser dita “pior” do que a outra.

O mais interessante é ver como cada personagem mostra um tipo completamente diferente de pessoa. Cada um dos quatro amigos traz dentro de si um vazio que acaba se tornando exatamente aquilo que os move. É bonito ver a diversidade de sentimentos que sentem, e a habilidade da autora de descrever cada um sem que fossem grandes esteriótipos sociais os tornam ainda mais humanos. Só para dar uma ideia, seguem pequenos resumos sobre eles:

Willem é um aspirante a ator. Bonito e muito simpático, ele é um personagem com que o leitor se conecta rapidamente. É impossível não sentir vontade de conhecer alguém tão educado. Apesar de sua normalidade, ele tem problemas em criar vínculos verdadeiramente profundos com outras pessoas, o que o vai levar a uma grade revelação sobre si mais tarde. Curiosamente, apesar de ser o que chamaríamos de uma “boa pessoa”, ele não acredita que mereça tudo o que possui, o que o leva muitas vezes a não  tentar ir além daquilo que já alcançou. Ele representa a dor daqueles que não se sentem no direito de reclamar tudo aquilo que possuem.

JB é um artista frustrado. Vindo de uma família que sempre o apoiou mesmo quando tinham pouco para tal, ele tenta entender o que foi que deu errado em sua vida. Curiosamente, ele acredita que merece mais do que os outros, não somente por ser tomado por um egoísmo um tanto doentio, mas por pensar que a única coisa que realmente precisava fazer pra se dar bem era ser sociável. Ao perceber que ser amigo de todos não é a resposta para seus problemas, ele tem de encarar o buraco negro que existe dentro de si para se encontrar.

Malcolm é talvez o mais um dos mais curiosos personagens. Ele parece ser uma sombra sobre o grupo; seu corpo está lá, mas sua mente não. Vindo de uma família rica e com todo um caminho já aberto por seus pais, Malcolm não consegue unir o físico com o mental. Como uma casa vazia, a vida passa por ele sem que perceba, levando-o a uma normalidade quase frustrante. Viver deixa de ser emocionante, se tornando somente uma rotina onde a felicidade é algo pequeno.

Por fim, temos Jude. O personagem mais enigmático dos quatro amigos, Jude é genial e incrivelmente frágil. Apesar de ter uma doença que aos poucos vai lhe tirando a locomoção, sua mente se torna cada vez mais afiada, o que o leva a alcançar lugares cada vez mais altos. Porém seu modo silencioso esconde uma infância assustadora que o persegue com afinco, tornando-se a inimiga de sua felicidade. O medo de que esse trauma defina sua vida transforma Jude em um homem incrivelmente delicado e abalado.

Como quatro pessoas tão diferentes se sustentam é muito comovente. A normalidade com que os laços se criam (e ás vezes quase se partem) faz o leitor lembrar do quanto toda e qualquer relação é complicada e cheia de beleza. Muitas vezes agimos como se os únicos relacionamentos profundos fossem aqueles que duram anos, mas esse livro lembra como a fragilidade de toda e qualquer relação não desmerece sua importância. Mesmo aqueles com quem cortamos relações são importantes fatores do nosso desenvolvimento como pessoas.

Outro ponto muito interessante é a forma com que os personagens falam de seus sentimentos. Pela primeira vez me deparei com pensamentos e ideias completamente diferentes das esperadas. Como uma pessoa que assistiu ao que estava acontecendo de fora, foi muito importante ter acesso ao que se passava na mente de cada um, principalmente na de Jude. A autora mostra como muitas vezes aquilo que sentimos é completamente inesperado: raiva de alguém que não nos fez mal, curiosidade sobre alguém que desprezamos e até amor por alguém que tentou nos derrubar. Essa percepção da falta de lógica dos sentimentos é rara de se encontrar, e vem como um sopro de humanidade na face do leitor.

Definitivamente é um livro que vale a pena ser lido. É difícil encontrar tamanha beleza em meio a uma mercado literário cada vez mais baseado em histórias simples e fáceis de ler. Uma pequena lembrança daquilo que somos: humanos.

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