Silêncio: o que se esconde no vazio?

*O seguinte texto contém alguns spoilers sobre o filme Silêncio.

O filme Silêncio de Martin Scorsese já tem tudo para ser um dos melhores filmes de 2017. Apesar de longo e sem muita ação, a tensão criada logo de início cria uma ligação difícil de ser quebrada entre a audiência e a história. Isso sem mencionar a fotografia do filme, que é ridiculamente bonita.

Porém, há algo muito além de um simples filme bem produzido. Enquanto eu assistia, minha mente voltava toda hora para o fato de que eu jamais parei para pensar como o cristianismo surgiu no Japão; também nunca pensei na violência que sua presença causaria. Todo esse tempo eu simplesmente aceitei que alguns japoneses eram cristãos, sem pensar em como poderia ser essa realidade.

Há muito para se aprender. Filmes como esse costumam mostrar o tanto que a mente pode ser imparcial. Mesmo com todo o acesso que sempre tive ao conhecimento – seja por meio de livros ou da escola – eu sempre tive certezas ou pensamentos que não davam espaço perguntas básicas. Passei grande parte da vida ignorando questões que muito mostram o mundo como ele é, e ainda devo ignorar muitas outras.

Essa experiência me fez perceber que o mundo é vasto. Pensamos ter conhecimento de tudo, como se conseguíssemos segurar o mundo na palma da mão e entender como ele funciona. Não é tão simples assim. Há muita coisa por trás da nossa realidade. Ninguém é isento de ódio, medo, sofrimento e dor, assim como também não somos isentos de alegria, amor, paz e compaixão.

Há vários momentos de confronto teológico e mesmo filosófico entre os personagens, mas tem um em especial que me chamou a atenção. Enquanto discutia com o inquisidor Inoue sobre a presença do cristianismo no Japão, o padre Rodrigues observa que somente há uma verdade, e que ela é a mesmo tanto em Portugal como no Japão, ao que o inquisidor observa que Portugal não tem o direito de invadir outros países e forçar aquilo que acreditam sobre as pessoas.

Essa cena mostra bem o equilíbrio do filme. Scorsese não defende nem julga completamente qualquer um dos lados. Ele dá a chance ao expectador pensar e chegar sozinho a uma determinada conclusão. Isso é algo cada vez mais difícil de se encontrar em filmes e livros, que se tornaram armas em defesa de pensamentos cada vez mais extremistas. Como uma brisa em um dia quente, esse filme traz uma nova expectativa ao cinema mundial.

O filme é incrível, e serve como uma grande experiência sobre religião. Mal posso esperar para ler o livro em que foi baseado, Chinmoku (Silence), de Shūsaku Endō. Mais um autor japonês para minha lista de “a ler”.

Eu espero que todos que assistam a esse filme gostem tanto quanto eu!

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