Um pequeno texto de carnaval

A história a seguir foi escrita por mim quando eu era bem mais jovem. Com o coração ingênuo e ainda idealizando o amor, eu costumava imaginar tristes relacionamentos, onde havia amor mas não havia chance. Sempre fui um pouco pessimista, nunca dando a chance de ver os personagens que criava felizes.

Agora estamos em pleno carnaval, e olhando alguns arquivos antigos encontrei uma saudosista confissão escrita como se a autora fosse Colombina, uma famosa personagem carnavalesca. Apesar de um tanto dramática, ainda enxergo a razão pela qual escrevi esse texto, e acredito que ainda vale como a pequena gota no rosto do triste Pierrot.


Saudades de um Carnaval Passado

Às vezes me pergunto se fiz a escolha certa. Várias vezes me peguei pensando em Pierrot: como era carinhoso comigo, no modo doce e romântico com que ele me tratava… Ele conseguia tocar no fundo de minha alma, agitando como uma leve brisa meu coração. Suas belas palavras, palavras que passaram a ser parte de mim e que levo comigo onde vou. Ó meu deus, Pierrot! O que foi que fiz?

Quando éramos só nós dois, tudo se tornava um grande jogo faz-de-conta. Era sempre janeiro; o tempo não passava. Com sua roupa prateada e seu sorriso tímido, ele parecia um jovem quieto e profundo. Tínhamos ideias de como seria o nosso futuro, do que faríamos e como seria nossa vida juntos. Tudo parecia um grande sonho, jamais considerando que algo poderia surgir e simplesmente acabar com aquilo que estávamos construindo. Como duas crianças, nosso amor era ingênuo, feito de palavras e sonhos, poemas e fantasias… Era um amor como o circo.

Então Arlequim chegou, e trouxe com ele fevereiro. O modo sonhador que embalava minha vida pareceu se desfazer, tomado por um fogo atraente porém perigoso. As palavras viraram gritos, os poemas se tornaram marchinhas. O ar se encheu de música e de confete, tudo queimando com um grande incêndio.

Inicialmente, Arlequim me assustou. Seu modo festeiro e sempre animado me deixava zonza, perdida. Suas palavras, ao contrário das de Pierrot, não tinham eco: eram vazias e secas. Com o tempo, porém, fui sendo invadida por sua animação, e passei a dançar e cantar o dia inteiro. As brincadeiras, o ar inebriante e a constante comida e bebida me levavam para outro lugar, que mais tarde descobri se chamar carnaval. Em meio a constante folia, fui me esquecendo de Pierrot, pulando o carnaval de manhã cedo até tarde da noite. No fim de quase sete dias de festa, Arlequim se foi, e a vida voltou ao normal.

A vida voltou ao normal, mas não meu coração. Eu passei a desejar ardentemente fevereiro, o calor da folia. O mundo voltou a soar como um sonho, mas era frio e monótono. Eu havia me apaixonado por Arlequim. A cada dia que passava eu sentia cada vez mais falta das brincadeiras, da música e da alegria. Por outro lado, eu sabia que ainda sentia algo por Pierrot. Suas palavras que ecoavam em minha mente, seu silêncio carinhoso… Tudo isso ainda me fazia muito feliz, e tornava o mundo em algo melhor.

Após um ano, fevereiro chegou novamente, trazendo com ele Arlequim. Novamente eu me vi perdida em meio à alegria do carnaval, ignorando completamente a existência de Pierrot. Dancei, comi e bebi, me deixando levar pelo ar de constante animação de Arlequim e seguindo o ritmo das marchinhas entoadas por ele. Ao final do penúltimo dia de carnaval, Arlequim me chamou a ir embora com ele no dia seguinte.

Naquela noite eu não consegui dormir. Fiquei pensando no que faria, em como tomar tal decisão. Eu precisava do fogo do Arlequim, mas será que que conseguiria viver sem o silêncio do Pierrot? Refleti no que faria por horas, e quando o primeiro raio de sol atravessou minha janela, tomei minha decisão. Eu escolhi Arlequim. Acreditei que ele conseguiria me manter entretida o suficiente para que minha mente nunca voltasse para Pierrot, abafando a minha necessidade de silêncio e de poesia. Na hora, aquela era a escolha correta, ou pelo menos era nisso que eu acreditava.

No dia seguinte, eu evitei Pierrot a todo custo e aceitei o convite de Arlequim. Não tive coragem de dizer a Pierrot o que havia acontecido, deixando que ele descobrisse sozinho. Fui tão covarde que não consegui encarar seu rosto nem saber o que a minha escolha faria com ele. Simplesmente pulei meu último carnaval e fui embora com Arlequim.

Por muito tempo não vi Pierrot. Arlequim e eu íamos de cidade em cidade, levando o carnaval para vários lugares. Com ele sempre era fevereiro, e a folia jamais tinha fim. Com o tempo fui ficando cansada de tanto barulho; meus pés começaram a doer constantemente, e minha maquiagem foi começando a ficar borrada. Porém não havia tempo para descansar – o carnaval nunca descansa.

Muitas histórias chegaram aos meus ouvidos sobre o que acontecera com o pobre Pierrot, mas eu não queria acreditar em nenhum delas. Eu gostava de imaginar que ele havia simplesmente aceitado e criado algo melhor para si. Eu me agarrara a essa ideia e tapava os ouvidos para qualquer outra possibilidade.

Só que fevereiro chegara novamente na cidade onde fora meu lar, e ao chegar lá, vi Pierrot. Havia algo diferente nele. Seu olhar não era mais doce nem carinhoso, e sim duro como diamantes; não havia emoção em seus movimentos, como se eles somente refletissem a luz do sol. Tentei encontrar qualquer tipo de sentimento neles, mas me deparei com um grande vazio. De sua boca, nem mesmo o menor dos sons – as palavras tinham morrido. O sorriso havia sumido, e uma pequena gota brilhante reluzia sobre seu olho direito.

Anos se passaram, e a cada vez que eu o vejo, ele parece mais triste. Em meio à folia e animação ele pode ser visto andando tristemente pelas ruas, com o olhar perdido e uma garrafa quase vazia em suas mãos. Apesar de ainda estar com Arlequim, sinto-me arrependida pela escolha que tomei. A vida que levo é vazia, a eterna animação é uma encenação. Muitas vezes me pego sonhando em como a vida que eu imaginara com Pierrot muitos anos antes era melhor, e apesar de menos animada, havia sentimento. Agora tudo dura somente alguns momentos, pois afinal, isso que o carnaval é: a folia do presente, sem passado nem futuro.

Ah, Pierrot… Que um dia você me perdoe pelo que fiz com você…


Referência:

A imagem da foto se chama “Os Criados”, desenho feito pela minha irmã Gabrielle G. Garnier

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